DRUZZ ON LINE

Name: Evandro da Nóbrega

Thursday, December 10, 2009

A FARSA DOS PROTOCOLOS DOS SÁBIOS DE SIÃO


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Ainda há bobos (ou pessoas de má-fé) que acreditam (ou fingem acreditar) num “documento” comprovadamente forjado em fins do século XIX pela polícia secreta do czar


Evandro da Nóbrega
ESCRITOR, JORNALISTA, EDITOR
[http://druzz.blogspot.com]
[druzz.tjpb@gmail.com]



Este material é também publicado nos seguintes URLs:

*Blog Cultural El Theatro, de Elpídio Navarro [www.eltheatro.com];

*Portal PS on Line, de Paulo Santos [www.psonlinebr.com] e

*Jornal A União On Line [www.auniao.pb.gov.br]



Há alguns dias, sem se identificar, alguém telefonou para emissora de rádio local, que no momento apresentava entrevistas e debates. Ao telefone, o ouvinte desconhecido aconselhava enfaticamente: “Leiam os Protocolos dos Sábios de Sião! Leiam os Protocolos dos Sábios de Sião!”...

Os radialistas ficaram sem saber o que danado era aquilo. Alguém arriscou: “Talvez seja um doido com mania de falar coisas incompreensíveis”.

Coin­­cidiu que o entrevistado seguinte foi Edivaldo Nóbrega, secretário estadual do Desenvolvimento e que vem a ser meu terceiro irmão. Quando lhe relataram o telefonema sobre os tais Protocolos, o mano aconselhou: “Liguem pro Druzz (eu, Evandro), que ele explica tudim”. Os radialistas pensaram então numa entrevista comigo em torno do assunto.

Precisa entrevistar, não! Nesta página de A União, Universidade Viva do Jornalismo, tento explicar didaticamente este negócio de Protocolos dos Sábios de Sião. Algo que deveria ser, aliás, do conhecimento de qualquer cidadão antenado com a realidade mundial.

Primeira coisa a ser dita: quem liga para uma emissora recomendando que as pessoas leiam os tais Protocolos dos Sábios de Sião, só pode ser

1) ignorante ou desinformado;

2) ou de má-fé;

3) ou os itens anteriores juntos — sem descartarmos a já referida sugestão de doidice. Isto porque, desde 1921, ficou indubitavelmente provado & comprovado que esses Protocolos não não passam de grosseira falsificação, de grotesca farsa.

Hoje, não pode haver, no Mundo, alguém educado, culto, informado, que ainda ache ter esse amontoado de baboseiras algum laivo de veracidade.

Vamos começar pelo começo. Em 1903 e 1905, na Rússia, apareceram — respectivamente em jornal e em livro — uma catadupa de mentiras antissemitas com o título de Os Protocolos dos Sábios de Sião. Era uma espécie de minuta de um “plano conspiratório judaico-maçônico” visando a substituir o Capitalismo e o Cristianismo, em particular no Ocidente, por nova ordem mundial, sob o comando os judeus e maçons.

O “livro” surgiu justamente na Rússia, país de longa tradição anti-semita, para justificar pogroms, os incríveis massacres de judeus, escolhidos como bodes expiatórios das frustrações sociais. Doença multissecular, o anti-semitismo obviamente não nasceu na Rússia e dela não é exclusivo. E o insano e inexplicável ódio que lhe é subjacente não se dirige só a judeus: atinge também árabes, negros, “bruxas”, homossexuais, “magos”, deficientes físicos et alii.

No russo original, os Protocolos chamaram-se Protokoly sionskikh mudryetsov [= Protocolos dos Sábios Sionistas], reduzido para Sionskie Protokoly [= Protocolos Sionistas]. Outra designação: Programma zavoevaniya mira evreyami [= Programa de dominação mundial pelos judeus]. Hoje em dia, são alguns países árabes e o Irã que irresponsavelmente mais disseminam edições desse lixo histórico, por irracional ódio gratuito à democracia representada por Israel.

Anti-semita & anti-Revolução

Além de perfídia contra judeus, maçons e a inteligência das pessoas, os Protocolos serviram à perfeição a reacionários russos e estrangeiros. Muitos dos revolucionários de 1917 eram efetivamente judeus. Entre esses, encontravam-se alguns dos mais educados cidadãos, vez que é de todos sabido ( embora o ressentimento antijudaico impeça a muitos o reconhecimento público desta verdade): o judeu, como regra, sempre privilegiou o saber, a escrita, a vida do espírito, a preservação da experiência para a posteridade.

Era do interesse dos czaristas e dos reacionários externos fazer com que parecesse verdadeiro aquele falso plano de dominação mundial “patrocinado” por Sião (Zion é outra forma de dizer Israel ou “o povo de Israel”).

Os Protocolos — com várias edições ou em séries na Imprensa, panfletos, livros etc — apareciam como a trancrição de fictício encontro secreto, mantido em 1897, na cidade de Basiléia, Suíça, por líderes judeus e maçons. Nesse imaginário encontro, tais lideranças propunham um “plano” de dominação mundial — absurdo em que alguns poucos infelizes gatos pingados ainda hoje creem.

Quem acredita em patranhas tais de normal tem obsessão por teorias conspiratórias, lendas urbanas, invasão de alienígenas, permanente desconfiança em tudo — e há até quem sofra de graves problemas mentais. São também indivíduos de má-fé, soturnos, doentios, ideologicamente deformados, com parti-pris pelas mais insensatas doutrinas.

Além de embuste, um caso de duplo plágio

Em Londres, no ano de 1920, apareceu o livro O perigo judeu, que outra coisa não era senão a transcrição dos falsos Protocolos. À mesma época, circulou em Paris uma tradução francesa. Havia o objetivo, não enxergado pelo público leitor influenciável, de dar veracidade aos falsos Protocolos.

Os “protocolos” teriam sido “descobertos” por um tal Serguiêy Nilus, servidor do regime czarista (parte do qual tinha todo o interesse em disseminar a perseguição popular aos judeus e, como depois se tornou óbvio, em desmoralizar a esquerda revolucionária russa). Mas, em 1921, o conceituado jornalista Philip Graves, correspondente de The Times de Londres em Constantinopla, investigou o caso a fundo.

E descobriu terem sido esses papéis simplesmente forjados pela Okhrana, a polícia secreta do czar. E, além disto, haviam sido plagiados, em grande parte, de duas obras obscuras: a) uma sátira a Napoleão III, escrita por advogado francês e publicada em Genebra e Bruxelas (1864 e 1865); e b) um romance fantasioso saí­do na França.

O rigoroso The Times imedia­tamente localizou os originais dos livros que haviam servido de base aos Protocolos — e a farsa foi inteiramente posta a descoberto. Enfim, os Protocolos não passavam (e não passam) de um plágio de outros plágios!... E toda a trama foi confessada, também, por um “russo branco” — um antibolchevista que lutava contra o novo regime comunista: um certo Mikhail Raslovlev, com ligações com a tal polícia secreta czarista.

Ocorre hoje o que ocorria então: as pessoas não leem, não se informam, e ficam acreditando em tudo quanto é invenção. Muitas têm até necessidade compulsiva de crer nas mais disparatadas lorotas — adoram ser enganadas. Como dizia aquele famoso dono de circo americano: “Você não perderá dinheiro se apostar na credulidade humana”...

No Brasil, só historiadores racistas aceitaram essa armação

Outra prova de que os Protocolos foram usados como arma política: na edição americana de 1919, as referências aos judeus viram-se substituídas por alusões aos comunistas soviéticos. No Brasil — onde tivemos nosso protocolozinho, sob a forma da farsa do Plano Cohen, em 1937, que resultou no Estado Novo —, somente escritores manifestamente racistas deram crédito aos Protocolos.

Em termos mundiais, hoje em dia, apenas regimes fanaticamente retrógrados, como o vigente no Irã, ainda aceitam os Protocolos como autênticos. Liderados por reconhecidos analfabetos em História, regimes teocráticos assim como esse não compreendem haver insanáveis discrepâncias entre diferentes versões dos “manuscritos”, que mudam de título e/ou de conteúdo conforme a língua e o país em que circulam.

Os defensores da insustentável autenticidade dos Protocolos são os mesmos analfas que pretendem negar a realidade do Holocausto, responsável pelo deliberado genocídio de 6 milhões de judeus na Europa hitlerista.

Pode-se até ver Mein Kampf, o “livro” do doido-ruim Adolf Hitler, como versão amplificada dos Protocolos. Antes de lerem as coisas que devem realmente conhecer, muitas pessoas vão logo acreditando, de cara, em doutrinas estapafúrdias, desde que atendam a seus vieses político-ideológicos. Assim, da próxima vez que alguém disser “Leia os Protocolos dos Sábios de Sião”, responda:

Leia você, na Encyclopaedia Britannica, o artigo ‘Protocols of the Lear­ned Elders of Zion’, que assim começa: os Protocolos constituem documento fraudulento que primordialmente serviu como pretexto e racio­nalização para o anti-semitismo de inícios do século XX...

Mas sabe o que um desses capadócios me respondeu? “É em inglês, não é? Não vou ler, não. Inglês é a língua de capitalistas, de imperialistas. Não quero negócio com qualquer coisa que venha dos EUA”.

O que é que se vai fazer com uma pessoa assim, a não ser cruzar os dedos para que a internem?! Esses retardados da Cultura presumem ter a “cabeça feita” e não querem queimar as pestanas, ler alguma coisa que preste. São efetivamente analfabetos funcionais: podem até ler alguns textos, mas não os compreendem — e compreendem ainda menos os contextos históricos que os produziram.

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[Publicado originalmente na última página da edição do jornal A União, de João Pessoa, PB, no domingo, 6 de dezembro de 2009]

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Monday, November 30, 2009

CECCO, O ANTI-DANTE ALIGHIERI


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O genial autor da Divina Comédia viu-se ridicularizado por ótimos sonetos de outro grande vate italiano, Cecco Angiolieri


Evandro da Nóbrega
ESCRITOR, JORNALISTA, EDITOR
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O primeiro filósofo com quem convivi, a partir dos sete anos (depois viriam outros, de Sócrates a Adorno) foi Ninim, vaqueiro tirador de leite das vacas de meu pai.

Sendo isto em Patos (PB), sempre o chamei Ninim das Espinharas.

Era de infinita bondade, conhecia tudo de pastorar gado e de aboios — e, todos os dias, me dizia inesquecíveis frases, no estilo:

— O Mundo é doido e a mãe num sabe.

— Quando a gente morre, tudo isto se acaba.

— Deus é grande e sabe o que faz.

— O Céu só tem uma coisa ruim, as virgens eternas...

Certa vez, Ninim me explicou sua, como direi, teoria dos espíritos-de-porco.

Segundo ele, quando nasce uma pessoa, o "povo do Céu" manda um anjo da guarda para acompanhá-la na Terra.

Nos Infernos, irritado com isso, o Cão-de-Rabo, vulgo Belzebu, destaca um de seus inumeráveis "secretários" (diabos, coisas-ruins, demônios, capirotos ou que nomes tenham) para também acompanhar essa mesma pessoa, atazanando-lhe a vida.

Dante Alighieri (circa 1265–1321) também teve seu cão perseguidor, o diabrete incansável que o tirava do sério: outro poeta, Cecco Angiolieri (circa 1260-1312), uma espécie de "anti-Dante".

Enquanto Dante mostrava-se sério, compenetrado, o blasfemo Cecco levava vida dissoluta: jogo, bebida, mulheres, brigas, sonetos mordazes...

Sua família era rica e nobre, além de haver fornecido um banqueiro ao Papa. Mas Cecco se afastou do pai e da mãe.

Nos poemas, dizia odiar os dois, alegando serem contra a ligação amorosa que mantinha com a desabrida Becchina, musa de sua vida e poesia.

Além disso, o pai não morria — para lhe deixar a fortuna.

Becchina (pronuncia-se bek-kína) é diminutivo de Domenichina (Domenikina, ‘Dominguinha’). Não era nobre, mas filha do coureiro/curtidorBenci.

Pronunciado tchékkô, com ênfase na primeira sílaba, Cecco é um dos diminutivos de Francesco, por si já diminutivo de Franco. Assim, Francesco Angiolieri da Siena adotou o apelido de Cecco Angiolieri (forçando um pouco, Chico dos Anjinhos). Mas nem pense em chamar Francesco Petrarca de Cecco Petrarca!

Constituída por mais de uma centena de sonetos muito bem resolvidos (alguns dos quais apenas atribuídos a ele, sem certeza de autoria), a obra de Cecco viu-se ignorada por muito tempo. Mas, depois, veio sua revalorização (ver abaixo).


“Se eu fosse o fogo”...

O soneto mais famoso de Cecco não é um dos que compôs para ou sobre Dante, mas aquele que diz:

“S'i' fosse foco, ardere' il mondo...”

[= “Se eu fosse o fogo, queimaria o Mundo...”]

Depois do soneto sobre o Florentino (abaixo), vêm, por importância, os que cantam os beijos de Becchina — e outro, hilariante, “dedicado” (naturalmente que contra a vontade da “vítima”...) a um cavaleiro de Siena, Neri.

Este ótimo soneto intitula-se ‘Quando Ner Picciolin voltou da França’ — metido a besta, com sotaque francês e ostentando riqueza.


Arialdo DeBernardi, Arialdo di Brescia

& Humberto Cavalcanti de Mello

Devo o interesse por Cecco ao falecido amigo italiano Arialdo DeBernardi, que me presenteou com livros sobre ele — além de outras autênticas preciosidades da Literatura italiana que me trazia pessoalmente (ou me enviava regularmente), direto de Brescia.

Já o notável historiador paraibano Humberto Cavalcanti de Melo — nosso maior historiador político e grande apreciador da Literatura italiana — também me estimulou a persistir na tradução dos sonetos de Cecco Angiolieri, de quem pouco se fala no Brasil.

Se algum livro sair deste outro esforço que ora empreendo, Humberto será o prefaciador. E o volume será com toda justiça dedicado a Arialdo DeBernardi, a quem sempre chamei de “Arialdo di Brescia” (realmente, um personagem histórico importante), por ser meu falecido amigo também originário, como seu xará mais antigo, dessa importante e mui histórica cidade italiana.

Como foi a briga dos poetas

Dante emitiu comentário maldoso sobre o colega Cecco, vate bem menos famoso que ele. Teria insinuado que Cecco era um begolardo nos palácios dos nobres, onde contava lorotas para goderar refeições deles.

Begolardo, já no italiano da época, significava charlatão, fanfarrão, bufão, contador de vantagens. Cecco não gostou. Tascou um soneto ferino (e bem escrito) em cima de Dante, fazendo-o calar-se — pelo menos no tocante a Cecco, poeta também já respeitado, por ser autor de ótima paródia (séria!) de um soneto de Petrarca.

Dante estava em Verona e Cecco, em Roma, ambos refugiados de problemas políticos em suas cidades natais, Florença e Siena.

Noutros sonetos (vide abaixo), Cecco já citara Dante. De início, eram amigos, mas, depois do dantesco comentário, seguido da ceccoesca resposta em versos, a amizade degringolou.

Na parte inferior desta página, o leitor verá três versões do soneto de Cecco:

1) no original, em arrevesado dialeto itálico-medieval, isto é, dos séculos XII e XIV;

2) na tradução livre, em prosa; e

3) numa tentativa de recriação minha, em português.

Não temam o linguajar italiano do século XIII: os textos em nosso vernáculo explicam o sentido da coisa.

Nem todo cidadão italiano de hoje em dia pode facilmente entender o falar ceccesco antigo, dialetal, abstruso, cheio de apóstrofos e abreviações (por exemplo, s'i' em lugar de si eo = si io = se eu).

O estudioso dos poetas desse recuado tempo tem que conhecer o "espírito da língua" italiana, sua História ortográfica, os dialetos locais etc.

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Mulheres: A Beatriz de Dante

versus a Becchina de Cecco

Um vários sonetos, Cecco ridicularizou a visão de Dante de uma mulher idealizada. À Beatriz poético-dantesca — aquela de "tanto gentile e tanto onesta pare / la Donna mia quand’ella altrui saluta", tímida, pudica, reservada, tremelicante —, opôs Cecco a figura de sua Becchina, robusta, sensual, desabrida, brava, saída do povo.

Se Dante tinha sua Beatrice (da importante família dos Portinari), Cecco dispunha de sua Becchina (que por aqui diríamos "dos Anzóis").

O sienense Cecco chegou a endereçar sonetos mordazes ao poeta florentino, criticando acerbamente isso de "tremer as pernas" ante as moças (ou vice-versa) — e não obteve resposta: Dante evitava contato com seu diabinho pulga-de-cós...

Apesar disto, e ignorado pelos "dantistas" por séculos, Cecco foi, sem dúvida, com seu estilo cortante, o mestre do verso cômico, humorístico, sardônico da Literatura italiana.

Não se quer, evidentemente, emprestar a Cecco importância igual à de Dante, poeta que sem dúvida influiu decisivamente no surgimento de um mundo novo. Tampouco se pode negar a Cecco o valor que também indubitavelmente ele teve e tem.

Nas últimas décadas, numa espécie de resgate de seu papel, a herança dele vem sendo cada vez mais estudada — não apenas na Itália, mas noutros países civilizados. No Brasil, porém, à exceção de pouquíssimos intelectuais, isto não ocorre, porque brazuca só parece gostar mesmo é de balípodo e/ou de correr empós trios-elétricos.

Nas nações avançadas, Cecco Angiolieri já é tema (além das reedições de sua poesia) de novos estudos críticos, pesquisas, música, teatro, romance, concursos...

É também a designação de vitorioso time de futebol italiano. Quem lá pensaria em fundar uma squadra di calcio com o nome de "Dante Alighieri Futebol Clube"?!...

E a crescente fama de Cecco vem servindo, hoje, até para criticar figuras da Política italiana, via charges.

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O SONETO DE CECCO ANGIOLIERI NA VERSÃO ORIGINAL

(DIALETO ITALIANO DO SÉCULO XIV)


S’i’ so bon begolardo

[Di Cecco Angiolieri a Dante Alighieri]


Dante Alighier, s’i’ so bon begolardo,
tu mi tien’ bene la lancia a le reni,
s’eo desno con altrui, e tu vi ceni;
s’eo mordo ‘l grasso, tu ne sugi ‘l lardo.


S’eo cimo ‘l panno, e tu vi freghi ‘l cardo:
s’eo so discorso, e tu poco raffreni;
s’eo gentileggio, e tu misser t’avveni;
s’eo so fatto romano, e tu lombardo.


Sì che, laudato Deo, rimproverare
poco pò l’uno l’altro di noi due:
sventura o poco senno cel fa fare.


E se di questo vòi dicere piùe,
Dante Alighier, i’ t’averò a stancare;
ch’eo so lo pungiglion, e tu se’ ’l bue.


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O SONETO DE CECCO ANGIOLIERI

EM PROSA (VERSÃO LIVRE)

Você, Dante, me chama charlatão, mas não é tão diferente de mim.

Se chupo manteiga à mesa dos poderosos, ao almoço, Você, na ceia, lhes suga o toucinho (a forma lardo também existe em português).

Se sou conviva permanente, Você sempre aparece na hora das refeições.

Se tento virar gentil-homem à força, Você também desta maneira vai-se quase transformando em senhor de grandes posses.

Quando me destaco, Você morre de inveja.

Pelo exílio, eu me tornei romano; e Você, lombardo — igualmente por desterro.

Apesar de que, graças a Deus, nenhum de nós dois pode reprovar algo no outro, pois tudo isto vem da falta de juízo e da desventura ou mau destino.

Então fica assim, Dante Alighieri: se Você persistir em dizer essas coisas sobre mim, juro que haverei de deixá-lo cansado — pois doravante vou conduzi-lo, vez que sou o aguilhão e Você não passa do boi.

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O SONETO DE CECCO ANGIOLIERI EM PORTUGUÊS


Se sou um fanfarrão...

[Recriação de Evandro da Nóbrega]


Se sou um charlatão e não um bardo,
não ficas, Dante, nem um pouco atrás!
Se almoço com uns, o jantar te traz;
se a banha chupo, sugas tu o lardo.


Escovas sempre a roupa, se a guardo;
e, se discurso bem, nunca tens paz;
se banco o rico, és nisto contumaz;
se romano virei, tu és lombardo.


Nenhum de nós dois pode, Deus garante,
recriminar o que o outro fez,
por falta de siso ou fado inconstante.


Se de mim falares outra vez,
vou perseguir-te e te cansar, oh Dante
— pois sou o aguilhão e tu, a rês.


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[Publicado originalmente na última página do

jornal A União, de João Pessoa, Paraíba, edição

do domingo, 29 de novembro de 2009]

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Tuesday, November 24, 2009

MinC aprova Memorial Sivuca

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Será um grande complexo/Centro Cultural, com moderníssimos equipamentos, interatividade e até as trilhas sonoras originais


Evandro da Nóbrega

ESCRITOR, JORNALISTA, EDITOR

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Já noticiei, aqui mesmo, em primeira mão, que a Paraíba terá dois Memoriais dedicados a Sivuca:


a) um maior, em João Pessoa; e


b) outro menor, mas igualmente importante, em Itabaiana, sua terra natal.


Agora anuncio também com exclusividade: o Ministro da Cultura, Juca Ferreira, já aprovou o projeto do Memorial Sivuca da Capital paraibana.


Autoridades do MinC e do Estado vão dar oficialmente maiores detalhes, mas já se pode garantir:


— o Ministro Juca Ferreira acaba de destinar os recursos necessários à execução da obra, no Orçamento do MinC para 2010, ano em que se iniciará e será concluído o grande emprendimento.


É realmente um empreendimento grande. Quando tomou conhecimento, via Flávio Tavares, do projeto elaborado sob os auspícios do atual Governo da Paraíba, o Ministro Juca ficou realmente maravilhado com a idéia. Porque, como muitas cabeças pensantes do Brasil, considera Sivuca um dos maiores músicos do século XX em todo o Mundo.


O responsável pelo MinC avisou então: por se tratar de Sivuca, seu Memorial não deveria ser “coisa pequena” — mas todo um Complexo Cultural à altura da grandeza do músico nascido em Itabaiana e notabilizado em todo o Planeta.


Tanto que o projeto original, saído da Paraíba e elaborado em São Paulo, por escritório especializado, teve que sofrer pequenas alterações, a fim de adequar-se à visão ministerial — que é, afinal, a visão dos que conhecem o significado da magistral contribuição de Sivuca à Música universal.


A aprovação integral do projeto constitui, de quebra, mais uma vitória, na área cultural, do atual Governo paraibano.


Além do Governador José Maranhão, envolveram-se pessoalmente, nesta batalha, entre outros: Glorinha Gadelha, viúva de Sivuca; o secretário da Educação e Cultura Salles Gaudêncio; o subsecretário-executivo da Cultura, David Fernandes; e o assessor cultural Chico Pereira.



Ministro Juca Ferreira é entusiasta do projeto



A isto se junte a vantagem de a idéia contar desde o início com a decidida simpatia do Ministro Juca Ferreira — responsável, em grande parte, como antigo secretário-executivo do MinC, pelo sucesso da Administração Gilberto Gil, seu antecessor na Pasta.


Para se fazer justiça, tudo se iniciou, em termos do projeto propriamente dito, com o então subsecretário Flávio Tavares, que levou ao Ministro Juca Ferreira a idéia primordial.


Essa idéia foi ampliada, com sugestões do próprio titular do MinC e complementada pelo sucessor de Flávio Tavares à frente da Subsecretaria Executiva da Cultura.


Assim, pode dizer-se que “Flávio bateu o escanteio e David cabeceou para o gol”.


O genial artista plástico (sobretudo pintor) Flávio Tavares — com o aval do secretário da Educação, Sales Gaudêncio, e do subsecretário executivo da Cultura, David Fernandes — continua e continuará à frente do projeto. E ainda haverá de fazer mais, inclusive pintando um grande painel para o Memorial, sob o tema “Feira de Mangaio”.


Contrapartida do Governo estadual: a cessão de amplo terreno em área verdejante da Capital. E Glória Gadelha entrará com sua parte, doando o acervo de Sivuca — de que é, como viúva, a mui leal (e legal) guardiã.



Um monumento ‘vivo’ e não apenas burocrático



Esses Memoriais Sivuca, em João Pessoa e em Itabaiana — além do Café Cultural Sivuca, também nesta última cidade, entre outras iniciativas em território da Paraíba e do Brasil — ajudarão de quebra a evitar a já visível tendência: que a memória de Sivuca seja mais cultuada no Exterior que em seu país natal.


Tal distorção acontece, por exemplo, com outro grande paraibano, o maestro José Siqueira (1907-1985), cujo legado musical é bem mais cultivado no Estrangeiro (especialmente na Rússia) do que em nossas tupiniquins plagas. Por aqui, no Brasil, não se ouve falar de (novas) gravações de Siqueira — ao passo que, da gravadora russa Melódya, eu mesmo, que não sou ninguém no meio da Crítica musical, recebia regularmente seus novos discos (gravados por orquestras eslavas!) e suas partituras.


O Memorial Sivuca se constituirá num grande Complexo ou Centro de Cultura, localizado num amplo espaço verde da Capital paraibana, com teatro interno, biblioteca especializada, salas para cursos de música, sala para leitura das partituras do Mestre, museu, cafeteria, salas audiovisuais em HD (alta definição), espaço para eventos nos jardins externos etc, além do Memorial "vivo" propriamente dito (e não apenas burocrático).


Itabaiana, terra natal do grande músico paraibano-universal, também terá seu Memorial Sivuca, com prédio-sede já reservado. Serão destinadas a esse Memorial itabaianense as peças em duplicata (e são em grande número!) existentes no acervo sivuquiano, tão bem conservado e ampliado por Glorinha Gadelha.


No Memorial Sivuca de João Pessoa, cursos para jovens poderiam até ser ministradas pelo Departamento de Música da UFPB. Esta Instituição lançou recentemente, por iniciativa do Reitor Rômulo Polari e da Vice-Reitora Yara Matos, magnífico álbum com as partituras sinfônicas de Sivuca — obra que vem merecendo a melhor aceitação em todo o Brasil e no Exterior.



Modernidade do Complexo impactará visitantes locais, nacionais e estrangeiros



De acordo com o originalíssimo (e mui elogiável) projeto, o Memorial servirá como espaço inédito para documentar, difundir e celebrar a riqueza da arte, a história e a memória do grande artista brasileiro. Abrigará importante acervo (partituras, discografia, imagens etc), de modo a propiciar às novas gerações conhecer a importância e o sentido cultural da obra de Sivuca.


Será equipamento cultural de caráter educativo — uma instituição viva, dinâmica, interativa e permanente, preocupando-se com a inclusão social e voltado-se para o desenvolvimento do espírito de cidadania.


Esse novo espaço, com alternativas lúdicas e interativas, trará aos habitantes de João Pessoa nova alternativa de lazer. Orientar-se-á pelas técnicas mais avançadas da museologia e da museografia contemporâneas. Exigirá a participação ativa do espectador como elemento substancial e protagonista da dinâmica. Atenderá a requisitos de interatividade, cidadania, educação, memória, qualidade, inovação, transcendência e democratização da informação.


Destina-se o Memorial não só à população de João Pessoa, mas também a todo o povo brasileiro, bem como ao público estrangeiro — que sempre demonstrou enorme respeito pela obra do genial Galego de Itabaiana.


Quando o Memorial estiver concluído, impactará visitantes locais, nacionais e estrangeiros.


Além de sua matriz arquitetônica, o projeto completo apresenta itens suplementares, com características museológicas, museográficas, cenográficas, luminotécnicas etc.


Isto inclui iluminação especial, logotipia e identidade visual, programação visual e gráfica para todos os setores, espaços e necessidades das exposições permanente e eventuais.


Vão agradar em cheio as instalações audiovisuais com o emprego de grandes monitores de LCD sincronizados de alta definiçao, aparelhos de multivídeo panorâmico, textos de apoio, ampliações de fotografias, painel de abertura, painéis específicos, linha do tempo, placas de sinalização em todas as áreas.


O Memorial Sivuca mostrará, enfim, o resultado de toda uma rica pesquisa iconográfica, documental, histórica, de objetos, audiovisual, textos explicativos, materiais didáticos e tudo o mais.


Um telão de 16m x 3m apresentará vida e obra de Sivuca, havendo outras telas e monitores distribuídos setorialmente.


Os conteúdos podem ser aprofundados via hipertexto, audiovisuais multitelas, projetores sincronizados, trilhas sonoras originais, acervos digitalizados, terminais de computador, monitores interativos, letreiros animados, tudo mostrando a importância de Sivuca na Paraíba, no Brasil e no Exterior.


O Memorial Sivuca contará ainda com auditórios, cinetea­tro, salas especiais, exibição de CDs, DVDs, peças multimídias, materiais duplicados e/ou plotados, equipamentos expositores, mobiliário especial, etiquetas de identificação personalizadas, excelente acabamento. Teremos até a execução de elementos cenográficos com a recriação de ambientes de época.


E os especialistas, responsáveis pela elaboração do projeto, acompanharão a execução da obra, até sua conclusão.

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[O texto original deste artigo foi publicado no jornal A União, de João Pessoa (PB), no domingo, 22 de novembro de 2009]

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Sunday, November 15, 2009

UMA BRIGA DE CACHORRO GRANDE...

[clique na imagem para ampliá-la e/ou para poder ler a legenda]

Diante do Cabo Branco, ponto mais oriental das Américas, uma decisiva batalha naval entre Holanda e Espanha/Portugal


Evandro da Nóbrega
ESCRITOR, JORNALISTA, EDITOR

URL: http://druzz.blogspot.com
E-mail: druzz.tjpb@gmail.com



W. J. Solha, um dos maiores intelectuais que já pisaram nossas plagas, escreveu...


Bem, em se tratando de Solha — que, afora escritor, crítico, romancista et alia, é também pintor — não se pode dizer apenas que "ele escreveu".

No caso, utilizou-se ele da "escrita ilustrada", num artigo cheio de quadros, fotos, esboços, desenhos etc, para sublinhar a circunstância de haver eu divulgado por aqui certos fatos absolutamente desconhecidos sobre Elias Herckmans, terceiro governador holandês da Paraíba.


Entre as revelações que fiz recentemente — 1) nesta mesma A União; 2) no blog Druzz OnLine; 3) no superblog cultural El Theatro; e 4) no Portal PS OnLine —, estão aquelas de que Herckmans teve


a) uma aventura russa antes de vir governar nossa Capitania;


b) um livro seu ilustrado por ninguém menos que Rembrandt; e


c) relevante papel no ataque feito por holandeses partidos de Pernambuco para atacar colônias dos espanhóis nas costas do Chile.


O artigo de Solha — intitulado "Druzz, Herckmans, Rembrandt, Frans Post e uma batalha naval ante o Cabo Branco" — pode ser lido num dos mais elogiados e tematicamente variegados blogs culturais do Nordeste, o de Elpídio Navarro [www.eltheatro.com].


E esse escrito solhiano refere-se também a um fato bem conhecido dos historiadores, mas quase inteiramente ignorado pelo leitor médio: a série de batalhas navais entre holandeses e luso-espanhóis ocorridas em janeiro de 1640 nas costas nordestinas, uma das quais se feriu diante do Cabo Branco — o ponto mais oriental das Américas.


Pelo menos quatro dessas batalhas navais, que se estenderam por quase uma semana, viram-se retratadas em águas-fortes traçadas pelo notável artista Frans Post, do entourage científico-cultural trazida ao Nordeste pelo conde alemão Maurício de Nassau-Siegen, a serviço dos interesses holandeses.


Tais combates foram, sim, uma briga de cachorro grande.


Envolvendo duas grandes potências da época, duraram sangrentamente de 12 a 17 de janeiro de 1640, com a frota holandesa (sob o comando do almirante Willem Loos) e a armada luso-espanhola (liderada pelo Conde da Torre, Dom Fernando Mascarenhas) lutando desesperadamente. Os holandeses ganharam a parada.


Num tempo sem TV, deve ter sido espetáculo assombroso assistir, do Cabo Branco, à feroz luta de tantos navios.


Ribombar de canhões, incêndios em várias naus, gritos de incentivo, pragas de dor, grunhidos de afogandos, pavor dos marinheiros, águas tintas de sangue, fumaça escondendo o céu e o horizonte, estilhaços de madeira das naves matando mais que os petardos propriamente ditos — tudo isso constituía algo decerto também aterrorizante para quem se achava em costa firme: a cruel refrega não se desenvolvia só no mar, mas também em terra.


Como disse Barlaeus, "a fúria do guerrear desconhece a moderação".



Nosso ‘alvo promontório’, tinto de sangue...



Essas gravuras de Post, juntamente com outras realizações artísticas de alto valor ilustrativo e histórico, saíram na primeira edição (a mais completa) da obra de Kaspar van Baerle (Casparus Barlaeus) sobre a "História do Brasil Holandês".


A obra foi intitulada, em latim, de Casparis Barlaei, Rerum per octennium in Brasilia et alibi nuper gestarum, sub praefectura illustrissimi Comitis I. Mauritii, Nassoviae, &c. Comitis, nunc Vesaliae gubernatoris & equitatus foederatorum Belgii ordd. sub Auriaco ductoris, historia. Amstelodami, Ex Typographeio Ioannis Blaeu, MDCXLVII.


Ampliando o título dado em português por seu tradutor Cláudio Brandão, podemos assim verter a designação:


"[Obra de] Gaspar Barlaeus, com a História dos feitos recentemente praticados no Brasil, durante oito anos, sob o Governo do ilustríssimo Conde João Maurício de Nassau, etc, ex-Governador e Capitão-General de Terra e Mar ali e ora Tenente-General da Cavalaria das Províncias Unidas da Holanda, sob o Príncipe de Orange, e Governador de Wesel, [saída em] Amsterdam, na tipografia de João Blaeu, 1647".


A frota luso-espanhola viera da Bahia e fora avistada primeiramente nas proximidades da Paraíba.


Depois, foi seguida em Tamarica, como os neerlandeses chamavam a pequena mas próspera Capitania de Itamaracá.


Finalmente, deu-se a primeira e violenta refrega, entre a ilha de Itamaracá e Goiana.


O segundo combate, à vista do Cabo Branco, foi dos mais renhidos.


Na África, entre Mazagan e Safi, havia outro ‘Cabo Branco’, promontório que, ao longe, parecia bem claro aos olhos dos navegantes.


Por sua vez, esse outro ‘Cabo Branco’ não deve ser confundido com o ‘Promotorium Album’ (versão latina do árabe Ras al-Abiyad), que ficava perto de Tyro, no Oriente Médio, e foi citado pela História Natural de Plínio, o Velho.



Ferocidade dos combates assombrou

até gente acostumada a carnificinas



No primeiro combate, dia 12, entre Itamaracá e Goiana, morreu entre muitos outros, o almirante Willem Loos, sucedido por Jacob Huyghens.


No dia seguinte, 13, na "refrega cruenta e terrível" travada à vista do Cabo Branco, tão intenso era, de parte a parte, o furor da artilharia, que o fumacê escondia "aos olhos o próprio céu e os inimigos".


No dia 14, de manhã cedo ao por-do-sol, os holandeses atacaram por vez terceira a frota hispano-lusitana, a duas milhas da costa da Parahyba, não sendo pequeno o número de "trucidados a ferro ou tragados pelas águas".


A 15 de janeiro, com a frota luso-espanhola já em fuga, os holandeses viram que ela se dirigia ao Rio Grande do Norte. Enviaram então um veloz iate ao Forte Ceulen, em Natal, para avisar do perigo.


No dia 16, o combate, agora nas proximidades do Cunhaú, no litoral do Rio Grande do Norte, durou novamente da aurora ao entardecer.


No dia 17, os "galegos" promoveram o ataque final aos combalidos hispano-lusitanos, que já nem de água podiam se abastecer nas costas nordestinas.


Os holandeses descansaram então, por uns dias, em Natal, e, a 1o. de fevereiro, chegaram vitoriosos a Pernambuco, comemorando com "fogueiras, luminárias e salvas de artilharia".


No discurso a seus homens, quando dos preparativos para a importante batalha — em que o Conde da Torre tentaria sem êxito retomar Pernambuco dos holandeses —, o conde de Nassau, "rei" batavo no Nordeste brasileiro, chamara a atenção para a seriedade de tal confronto naval: se vencessem, todo o império brasileiro poderia ser deles.


A armada ibérica partira da Espanha. Depois de ultrapassar o Cabo Verde e de haver "percorrido o começo do Oceano Etiópico", fora "arremessada pelos ventos e correntes em frente do litoral do Cabo de Santo Agostinho", nas costas nordestinas.


Daí rumou para a Bahia, já perseguida pelas naus holandesas, mas conseguiu refugiar-se no Recôncavo. Depois disto, e com muitos reforços novos, entre os quais 34 vasos de guerra, dois dos quais com 16 bocas-de-fogo, mantimentos e mais soldados portugueses — é que se dirigiu às costas de Pernambuco.


Em Alagoas, foram desembarcados 2 mil homens, que deviam seguir por terra e atacar Recife. A armada hispano-lusitana contava ao todo com 93 embarcações, entre as quais 24 galeões, que "aterrorizavam pela sua enormidade".


Só a nau-almiranta espanhola San José contava com 54 canhões de bronze. As naus menores, com capacidade 100 a 400 toneladas, conduziam milhares de homens, "alistados na Espanha, Portugal, Bahia, Rio de Janeiro e Rio da Prata".


A armada holandesa contava somente com pouco menos de 35 naus — mas sua grande vantagem era a mobilidade: enquanto os pesadões navios ibéricos tinham dificuldade em realizar manobras, as leves naus batavas moviam-se com rapidez.


Assim, apenas da citada nau hispânica San José, que levava 700 homens, morreram 400.


Não é de estranhar, portanto, que o Conde da Torre, após lutar o ruim combate, tenha regressado à Europa, esquecendo isso de retomar Pernambuco das mãos dos batavos.


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[Publicado originalmente na última página da edição de 15 de novembro de 2009 do jornal A União, João Pessoa, PB]

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Sunday, November 08, 2009

PEQUENA HISTÓRIA DO MURO DE BERLIM



Símbolo da Guerra Fria, o incrível Muro de Berlim — cuja queda se deu exatamente há duas décadas, num dia 9 de novembro como este — durou quase 30 anos e aumentou as tensões entre os EUA e a URSS



Evandro da Nóbrega

ESCRITOR, JORNALISTA, EDITOR

http://druzz.blogspot.com

druzz.tjpb@gmail.com



Nas páginas centrais deste Caderno Especial de A União, W. J. Solha felizmente já nos brindou com sua visão mágico-fantástica da Queda do Muro de Berlim, que faz 20 anos neste 9 de novembro de 2009. Aqui, nesta última página, o leitor encontrará abordagem mais factual do que foi o Muro — e por que ele caiu.


Hoje, dia 9, na capital alemã, haverá grandes comemorações — iniciadas de véspera, aliás, pelo show da popularíssima banda irlandesa U2, a qual sempre se aliou a causas políticas e humanitárias.


Por esta e outras, já se vê que não se trata apenas de uma comemoração da Alemanha, mas de praticamente todo o Mundo, em especial os chamados países democráticos — alguns dos quais, em verdade, vivendo em regime de democradura.


O Muro de Berlim, que media uns 140 km, constituiu o próprio símbolo da Guerra Fria, aquele tenso período que se iniciou logo depois da II Guerra Mundial e que se estendeu até a débâcle da URSS, em 1991.


Nessa fase da História da Humanidade, EUA e URSS mantiveram danosíssima queda-de-braço, alimentando guerras localizadas em várias partes do Planeta. A espada de Dâmocles da guerra nuclear (e da consequente extinção das espécies na Terra) balançava perigosamente sobre a cabeça de todos.


Foi o “estouro da manada”


Há exatamente 20 anos, em 9 de novembro de 1989, as autoridades da Alemanha Oriental não suportaram a pressão das massas e permitiram, em 9 de novembro de 1989, a visita de qualquer de seus cidadãos ao lado ocidental.


Houve como que um estouro da boiada: multidões correram para o Muro, a fim de ultrapassá-lo. Do "lado de cá", os cidadãos "ocidentais" acorreram à grande parede, a fim de confraternizar com os irmãos de há muitos separados.


E, ali mesmo, em Berlim, iniciou-se o trabalho de demolição do colosso, primeiro com canivetes, depois com picaretas, marretas e tudo o mais. Uma dramática festa. Pedaços do muro, que levou tempo para ser totalmente posto abaixo, eram guardados como lembrança.


Uma “parede antifascista”...


Os alemães ocidentais conheciam o Muro como Berliner Mauer (Muro de Berlim), ao passo que, no lado oriental, a designação oficial era mais burocrática: Antifaschistischer Schutzwall, algo como "o muro protetor contra os fascistas"). Em inglês, a expressão correta é Berlin Wall. Já os russos, outros interessados no caso, o chamavam de Byerlinskaya Stiná [= “A Parede de Berlim”].


Essa pedra, corporificada no Muro de Berlim, já havia sido cantada desde 1946, pelo primeiro-ministro britânico Churchill, quando se referiu a uma "cortina de ferro" que (então só ele) via baixar sobre o Leste europeu.


O Muro circundava toda a Berlim Ocidental. Essa parte da cidade ficou totalmente separada não só da Alemanha como da própria Berlim Oriental, sem se considerar a ainda mais longa fronteira entre as Alemanhas Oriental e Ocidental.


A derrubada do muro abriu caminho para a reunificação da Alemanha, materializada formalmente a 3/10/1990.


A fuga oriental de cérebros e de mão-de-obra


O Muro de Berlim durou de 1961 a 1989, por quase 30 anos. Dispunha de torres de guarda, não tendo sido poucos os que encontraram a morte tentando escalar as altas paredes de concreto para deixar o "paraíso oriental" e ingressar no "céu capitalista".


Tudo começara quando Berlim se viu ocupada por exércitos russos, americanos, ingleses e franceses. O Tratado de Potsdam deu a cada parte o governo de uma das zonas. Mas Berlim era caso especial: sediava o Conselho dos Aliados, ficando na zona russa da Alemanha. Os conflitos não demoraram a surgir.


Houve, então, uma "Berlim Oriental" e uma "Berlim Ocidental", como logo em seguida haveria uma Alemanha Oriental (a República Democrática Alemã, RDA) e a República Federal da Alemanha (RFA), esta com capital em Bonn.


Os métodos empregados pelos novos patrões soviéticos, na Alemanha, eram os mesmos vigentes na URSS, incluído o uso das forças armadas e da polícia secreta para controlar tudo. Aí veio a crise pela escolha de uma nova moeda alemã, resultando no bloqueio de Berlim, pelos soviéticos, em 1948: nada podia entrar na cidade.


Os demais aliados tiveram que inventar uma espécie de "ponte aérea" para abastecer Berlim. Os protestos fizeram com que o bloqueio fosse suspenso em 1949. Em fins desse mesmo ano, surgia oficialmente a Alemanha Oriental (RDA), na prática gerida pela URSS.


Do "lado de cá", a Alemanha Ocidental (RFA) fazia o contrário: seguia exitosamente o caminho capitalista, inclusive com eleições. De modo que, já em 1950 (e até 1952), iniciou-se a "corrida" de "orientais" para a parte germano-ocidental.


Se a fronteira ficasse aberta, continuaria o êxodo dos "alemães orientais" para a Alemanha Ocidental — uma espécie de corrida de mão-de-obra e de cérebros para o capitalismo que já desfalcara o "lado russo" de uns 3,5 milhões de cidadãos.


Mesmo depois de construído o Muro, cerca de 5 mil "orientais" tentaram escapar do "lado de lá", morrendo uns 200. Na parte alemã, de regime soviético (e onde os cidadãos claramente desejavam que as tropas russas voltassem para casa, isto é, para a URSS), as indústrias foram todas estatizadas. Enquanto isso, os EUA e outros aliados acenavam com o Plano Marshall, de reconstrução capitalista do país.


O grave tema chegou a ser tratado

pessoalmente por Stálin e Khrushtchov


O caso da fuga de alemães orientais para o lado ocidental chegou a ser levado ao próprio Stálin, que, a essa altura já totalmente paranóico, determinou o rígido fechamento das fronteiras.


Em 1955, alguns passes especiais para visitas ao "outro lado" ainda eram permitidos. Mas, no ano seguinte, tudo se fechou realmente na fronteira entre os "dois países", que, idealmente, era um só, mas tinha moedas diferentes. Em Berlim, porém, tais restrições não eram tão rígidas quanto depois passaram a ser.


Os EUA começaram a dizer abertamente, então, que a URSS não suportava a comparação feita naturalmente pelos cidadãos entre a prosperidade do lado ocidental com a relativa pobreza do lado oriental — piorada ante as defecções da inteligentsia germano-oriental em prol da RFA. A RDA respondia, entre outras coisas, que os emigrantes eram covardes, que só pensavam na boa-vida capitalista, deixando seus irmãos sozinhos e em maiores dificuldades.


A construção do muro — precedida em 1961 pela instalação de arame farpado em quase toda a "fronteira" — foi aparentemente sugerida pelo próprio premier soviético Nikita Khrushtchov [pronuncia-se rrusshtchióf].


Sua construção iniciou-se ainda em agosto desse mesmo ano. Para isto, tropas germano-orientais bloquearam as passagens ainda abertas e trabalhadores chegaram em caminhões, com largos blocos de concretos. Uma ordem era atirar em quem se opusesse à estranha construção.


Um dos primeiros resultados disto é que muitas famílias alemães ficaram separadas, com integrantes em ambos os lados do Muro. Protestos se iniciaram em várias partes do Mundo, piorando ainda mais (se isto era possível) o clima da Guerra Fria — mas as autoridades da Alemanha Oriental fizeram ouvidos de mercador.


A queda do Muro

& a derrocada

da URSS


Em 1963, o presidente americano Kennedy visitou o Muro de Berlim e disse, em alemão, "Ich bin ein Berliner!" (Sou um berlinense!"). Mas uma coisa são as boas intenções e, outra, a realidade político-estratégica da realista diplomacia mundial. O próprio governo americano revelou depois: defenderia os alemães ocidentais e não se meteria com a vida dos orientais. Terminou por reconhecer o Muro como fato consumado.


A bem da verdade, as unidades americanas em Berlim até respiraram aliviadas ao verem que, com a construção da big wall, diminuíra consideravelmente o perigo de tropas germano-soviéticas as atacarem, visando à retomada de toda Berlim...


De todo modo, os EUA, sob pressão da Alemanha Ocidental e França, aumentaram em muito sua presença militar em Berlim. E, do lado oriental, um dos "bons resultados" do Muro foi uma relativa recuperação econômica.


Como era uma contradição dentro de uma contradição, o Muro não poderia mesmo subsistir — como não subsistiu o regime antidemocrático que, local e mais remotamente, lhe servia de suporte. Primeiro porque baseado nas verdades absolutas de um Partido único e, depois, porque já trazia em seu cerne, como diria o próprio Marx, o germe mesmo de sua negação dialética...


E tenha em mente: o Muro de Berlim era algo bem diverso — mas algo bastante diverso mesmo — do que é, hoje, o muro construído pelo Estado de Israel para diminuir os irracionais ataques de terroristas suicidas a seus cidadãos.

Mas esta já é outra história.


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[Este artigo foi originalmente publicado no Caderno Especial com que o jornal A União, de João Pessoa (PB), assinalou, em em 8 de novembro de 2009, a passagem dos 20 anos da queda do Muro de Berlim, a 9 de novembro de 1989]

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SIVUCA EM DUPLO RELANÇAMENTO


Depois do magnífico álbum da UFPB,

com partituras de suas obras sinfônicas,

músico tem CD e DVD relançados

pela gravadora Biscoito Fino


Evandro da Nóbrega

ESCRITOR, JORNALISTA, EDITOR

http://druzz.blogspot.com

druzz.tjpb@gmail.com



Q

uando lançou, em meados de abril deste ano, o álbum Sivuca - Partituras/Scores, com as partes completas para orquestra sinfônica, orquestra de cordas e quinteto de cordas (todas de autoria do grande músico paraibano), o reitor da UFPB, professor e economista Rômulo Soares Polari, marcava um dos pontos altos e inesquecíveis de sua administração.


A edição do álbum — lançado em concerto da Orquestra de Câmara da Universidade, com a participação do acordeonista Toninho Ferragutti, nas festas pelos 50 anos da Instituição — tornou-se possível graças aos esforços conjuntos do próprio reitor, vice-reitora Yara Matos, musicistas Carlos Anísio, Radegundis Feitosa e Marcílio Onofre, além da Editora Universitária e, naturalmente, da viúva do músico, a compositora Glorinha Gadelha.


Insista-se na importância de tal publicação, especialmente para a Musicologia e a História da Música paraibana/brasileira, haja vista a repercussão que o álbum vem obtendo nos mais diferentes meios de todo o País e no Exterior.


Aproveite-se o ensejo para esclarecer em definitivo: não têm o mais mínimo fundamento as "informações" de que o "acervo" de Sivuca (1930-2006) haja sido "doado" por sua "primeira-dama", Glória Gadelha, ao Instituto Joaquim Nabuco, de Recife (PE).


O autêntico acervo sivuquiano, preservado há anos pela própria Glorinha, acha-se perfeitamente intacto. Pertence à Paraíba e — anotem bem — integra(rá) as coleções dos:


1) Memorial Sivuca, a ser construído, pelo Governo do Estado, com apoio do MinC (projeto em andamento), num grande espaço verde, em João Pessoa, com teatro interno, biblioteca especializada, salas para cursos de música, sala para leitura das partituras do Mestre, museu, cafeteria, salas audiovisuais, espaço para eventos nos jardins externos etc, além do Memorial "vivo" propriamente dito (não apenas burocrático); e


2) Memorial Sivuca, este em sua amada terra natal, Itabaiana (prédio-sede já assegurado), e para onde irão muitos objetos e os restos mortais do grande Sivuca, segundo compromisso assumido (maio de 2007) por Glorinha Gadelha, com apoio da prefeitura local, do deputado Marcondes Gadelha e do Governo do Estado. Recentemente, também em Itabaiana, a prefeita Dona Dida inaugurou o Sivuca Café Cultural, que não deve ser confundido com o Memorial Sivuca da mesma cidade.


Meses antes de falecer, Sivuca separou originais de partituras sinfônicas suas, para que Glorinha as entregasse ao Instituto pernambucano. Foi assim cumprida uma de suas últimas vontades, sem prejuízo para nosso Estado — até porque essas partituras se eternizaram no álbum da UFPB. Sivuca sempre dizia: Recife foi sua grande universidade musical, seu meio acadêmico, onde bem se preparou para enfrentar o mundo.


Paraíba, Pernambuco

e o Mundo


Sivuca fez muitos amigos em Recife, onde se fixou aos 15 anos de idade — e onde também realizou arranjos e muitos outros trabalhos, novamente a partir de 1985, quando, como explica Glorinha na Apresentação do álbum, “recebeu convite do maestro Eugene Egan, regente da Orquestra Sinfônica do Recife, para escrever uma peça [sinfônica] e apresentá-la no palco do Teatro Santa Isabel”.


Relançamentos

pela gravadora

Biscoito Fino


A prestigiosa gravadora Biscoito Fino, de cujo catálogo já constavam outras obras de Sivuca, vem de relançar um CD e um DVD do notável paraibano universal.


Tudo isto faz parte do diuturno e elogiável esforço de Glória Gadelha para preservar a memória do marido. Glorinha obteve recentemente, junto a essa gravadora (www.biscoitofino.com.br), o relançamento de dois fonogramas do músico itabaianense-universal, já nas lojas:


1) o CD Enfim solo — em que Sivuca toca piano, violão e sanfona, originalmente lançado, em 1997, pela gravadora Kuarup (a nova capa traz uma ilustração de 2003, de autoria do artista cearense C. Einstein); e


2) o DVD O Poeta do Som, mantidos capa e encarte originais, além de belo texto do escritor, poeta e acadêmico Sitônio Pinto.


O CD Enfim solo — produzido por Mário de Aratanha, com arranjos e direção musical de Sivuca — deveu-se a uma ideia original de Glória Gadelha. E virão brevemente outros relançamentos de CDs que já não estão mais no mercado.


A gravadora brasileira Biscoito Fino foi criada em 2001 por Kati Almeida Braga e Olivia Hime. Dedica-se exclusivamente à música de altíssima qualidade. Assim é que muitos expoentes da MPB já foram por ela lançados, ultrapassando mais de 150 excepcionais realizações no universo sonoro nacional.

"De saraus assim

é que o Pixinguinha

e o Radamés Gnatalli

gostavam tanto"


O relançamento da gravadora Biscoito Fino mantém o primoroso texto do encarte escrito pelo jornalista e crítico Mário de Aratanha, dono da extinta gravadora Kuarup, selo responsável pelo lançamento original de Enfim solo, em 1997.


Grande produtor e diretor musical, além de criador de primoroso acervo da MPB, Aratanha diz aí coisas maravilhosas sobre Sivuca, um dos mais completos músicos da contemporaneidade mundial (ressalve-se que Eric Petersen, por ele adiante citado, faleceu no mês de setembro passado, em Odense, Dinamarca):


"A imagem que se tem de Sivuca é a daquele sanfoneiro albino da Paraíba, que começou em rádio no Recife, correu o mundo tocando com Miriam Makeba e Harry Belafonte, fazendo samba e jazz, forró e musette, choro e calipso.


"Solista carismático, virtuose em vários instrumentos, arranjador do quarteto sinfônico, Sivuca sempre deu preferência aos conjuntos, às formações maiores, aos arranjos ricos em vozes diferentes. Mas quem não se lembra quando, em suas apresentações, Sivuca fica sozinho no palco e ataca na sanfona o Quando me lembro, de Luperce Miranda, ou a Tocata em ré menor, de Bach? Ponto alto de virtuosismo que empolga e prepara a volta do conjunto para a segunda parte... Pois este Sivuca só se entrevia.


"Nos últimos anos, quase que paralelamente com o desenvolvimento de seus arranjos sinfônicos, o sanfoneiro se dedicou mais a Bach e a Pixinguinha na sanfona só, gerando um embrião de repertório para este disco, ideia de sua companheira Glorinha Gadelha. ‘Sivuca está cada vez melhor’, dizia ela, ‘Tem que gravar este homem sozinho no estúdio’...


"Pois lá fomos nós, em três etapas, de julho de 95 a julho de 97. Primeiro ele gravou sanfona só: Luperce e o Bach, mais o Pixinguinha e duas valsas, uma brasileira, Subindo ao céu (a pedido de Janine Houard), e outra dinamarquesa, Véu de grinalda (‘Meu amigo Eric Petersen vai chorar quando ouvir esta’, disse Sivuca, esfregando as mãos). Em setembro de 96, ele levou o violão e a sanfona, e gravou em multicanal o choro em homenagem ao Dino 7 Cordas e Em nome do amor, de Glória Gadelha. Aproveitou para refazer o Pixinguinha e criar de improviso o pot-pourri de frevos, lembrando o velho Recife de tantos anos atrás.


"Aliás, falando em Recife, um parêntesis. Fui há anos ao Recife com Sivuca para uma gravação. Pois lá as pessoas o param nas ruas, os motoristas o saúdam pela janela: ‘Ô, sanfoneiro!’. [...] "Voltamos a estúdio para finalizar o CD, e aí, além do Aboio e do Forró praieiro, vieram as maiores surpresas: o pianista originalíssimo de Da cor do pecado, Guacira e Aquariana, e o cantor emocionante de Canção que se imaginara, em memória da amiga Nara Leão, composta com Paulinho Tapajós na noite em que ela se foi.


"No meio das gravações, de vez em quando Sivuca confessava que se sentia ‘meio nu’ tocando solo ou com poucos instrumentos. Mas aos poucos o repertório foi crescendo, e nosso sanfoneiro se empolgando: ‘Hoje, eu amo este Enfim, solo intimista. Não me sinto só, me sinto numa sala rodeado de amigos, mostrando o que tenho de melhor dentro de mim. É de um sarau, de uma noitada dessas de que o Radamés e o Pixinguinha gostavam tanto... Dessas em que o dia amanheceu e a gente nem sentiu’."


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[Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal A União, de João Pessoa (PB), em 8 de novembro de 2009]


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Monday, November 02, 2009

A ‘AVENTURA CHILENA’ DE ELIAS HERCKMANS


PROVOCANDO A IRA DOS ESPANHÓIS
O célebre almirante holandês Hendrik Brouwer, a quem Elias Herckman, então já ex-governador da Capitania da Paraíba, sucedeu como comandante geral da expedição à ilha de Chiloé e às ruínas de Valdívia. Herckmans sepultou Brouwer nas costas do Chile, sucedendo-o como almirante da expedição — e voltaria depois a Recife, onde morreu (e onde foi enterrado). Mas, em Valdívia, o cadáver de Brouwer foi arrancado da cova e incendiado pelos espanhóis, irritadíssimos com a razzia da dupla de almirantes neerlandeses e seus soldados/marinheiros.

UMA EXPEDIÇÃO RECHEADA DE PERIPÉCIAS
Mapa do arquipélago de Chiloé, nas costas do Chile, uma das primeiras possessões tomadas aos espanhóis pela expedição de Hendrik Brouwer e Elias Herckmans ao extremo sul das Américas. [Se Você clicar em qualquer das ilustrações deste blog, poderá ver a imagem ampliada e seus detalhes]


Primeiro como ‘vice-almirante secreto’ e, depois, como almirante tout court, Elias Herckmans deu muito trabalho aos espanhóis nas costas chilenas


Evandro da Nóbrega
ESCRITOR, JORNALISTA, EDITOR
[druzz@reitoria.ufpb.br]



Este artigo é também publicado nos seguintes sites:

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Com o almirante Hendrik Brouwer, ex-governador holandês da Paraíba participou de nova aventura — dessa vez nas costas chilenas


Elias Herckmans (1596-1644), terceiro governador holandês da Paraíba, meteu-se em diversas aventuras — guerreiras, administrativas, poéticas, literárias — aqui e alhures: na Rússia, Holanda, Pernambuco, sertões nordestinos... E, finalmente, houve a (também por aqui pouquíssimo conhecida) “aventura de Herckmans no Chile”.
Não podia ficar parado alguém com a energia intelectual e física de Herckmans. Depois de governar da Paraíba por três anos (1636-1639), ele aqui ainda esteve, vindo de Recife, para realizar a famosa expedição ao interior desta e outras Capitanias. O relato dessa sua ida ao hinterland foi publicado não em sua importantíssima Descrição geral da Capitania da Paraíba, concluída antes de 1640, mas no ainda mais famoso livro de Gaspar Barlaeus, Rerum per octennium in Brasilia, de 1647.


E depois da incursão aos Sertões nordestinos?


A expedição sertanejo-nordestina de Herckmans ocorreu para que esse idealista mostrasse serviço à Companhia Holandesa das Índias Ocidentais — e mesmo porque ele era um espírito inquieto, aventureiro, ávido por novidades. Mas nada rendeu, em termos de metais preciosos, embora tenha resultado em valiosas informações adicionais sobre a vida nos sertões nordestinos.
Herckmans participaria de incursão ainda mais célebre: a que realizou, com o almirante Hendrik Brouwer, às costas do Chile, para atacar possessões dos espanhóis. A ordem da Companhia holandesa era atacar o inimigo em suas próprias fontes de riqueza, causando-lhes o maior dano possível, com a destruição de colônias, fortes e benfeitorias, além da pilhagem a seus carregamentos de ouro, prata, madeira etc.


Nassau, Brouwer & Elias Herckmans


Herckmans achava-se em Recife, mais ou menos subaproveitado como diretor, quando, em 1642, chegou a Pernambuco o já então afamado almirante, explorador e administrador colonial Hendrik Brouwer (1581-1643). Este já prestara, desde 1606, destacados serviços à Holanda, no Japão e noutras áreas de ação da Companhia das Índias Orientais. Largou o importante cargo de chefão no Oriente e veio a Recife, ver o que seria possível fazer nas Índias Ocidentais.
O governador do Brasil holandês, João Maurício de Nassau-Siegen, forneceu aos navios de Brouwer as provisões necessárias para que efetivasse o ataque às costas do Chile, com a finalidade de implantar um entreposto comercial avançado nas ruínas de Valdívia. A “aventura chilena” é uma das muitas razões pelas quais "nosso" governador Herckmans jamais deixará de ser citado pela História. Não em notas de rodapé — mas como protagonista.


Uma nova edição da Descrição Geral da Capitania da Paraíba


Em mais uma prova de que tudo em torno destes temas desperta interesse, Heitor Cabral, dono da Editora Linha d’Água, lançará em breve nova edição da Descrição de Herckmans.
A primeira tradução/edição genuinamente paraibana da Generale beschrijvinge van de Capitanie Paraiba somente saiu em 1982, por iniciativa dos historiadores Wellington Aguiar e Marcus Odilon Ribeiro Coutinho, também autores do Prefácio e imperdíveis Notas.


Um relato em diversas línguas


A aventura chilena de Brouwer & Herckmans é relatada não por um, mas por diversos livros. O primeiro relato dessas peripécias saiu em 1646, na Holanda (Amsterdam), pela famosa tipografia de Johanes Blaeu, sob o título (em holandês do século XVII) de Narração histórica da viagem feita do Leste do Estreito de Le Maire às costas do Chile, por ordem de Sua Excelência, o General Hendrik Brouwer etc nos anos de 1642 e 1643.
Embora livro de autoria anônima, não tenho dúvidas de que por lá de alguma forma andou o dedo de Herckmans. Isto por existirem na obra passagens particularmente cultas, a marca dele. Sairiam depois outros relatos, inclusive em 1647, na primeira edição da famosa obra de Gaspar Barlaeus, Rerum per octennium in Brasilia [= Feitos recentemente realizados etc], a fonte mais importante para a História do Brasil holandês, ao lado dos relatórios oficiais e das memórias deixadas por administradores neerlandeses, dentre as quais se destaca a própria Descrição geral da Capitania da Paraíba, de "nosso" Herckmans.
A crônica dos acontecimentos no Chile sairia depois em alemão, inglês, francês, espanhol e noutras línguas, inclusive em reedições holandesas, atendendo ao real interesse que o grande público sempre demonstrou ante esses relatos de viagens marítimas e conquistas de terras exóticas. Em minha humilde biblioteca, disponho desses relatos em diferentes idiomas — e, da leitura deles, salta um Herckmans vívido: ativo, inteligente, culto.


Herckmans “decapitado” na Inglaterra (!?)...


De início, os ataques de Brouwer e Herckmans no Chile surtiram efeito, com a ocupação do arquipélago de Chiloé, a tomada de fortes e o assédio à embocadura do rio Valdívia. Foi só em 1643 que, morto Brouwer, Herckmans pôde ocupar as ruínas da estratégica cidade do mesmo nome (ver abaixo).
De início colaborativos, os indígenas se recusaram depois a ajudar os holandeses, embora combatessem renhidamente os espanhóis. Diante disso, por fim, e tendo ouvido os comandantes militares sob suas ordens, Herckmans decidiu abandonar as costas chilenas, retornando a Pernambuco em 28/10/1643. Em Recife, responsabilizado por aquilo que seus chefes consideraram “o desastre do Chile”, certamente escapou de ser levado a um conselho de guerra por haver falecido no ano seguinte, alquebrado por tantas aventuras e incompreensões. Mais tarde, um livro em espanhol, todo errado, referiu que Herckmans e Brouwer teriam sido... decapitados na Inglaterra (?!), depois de “voltarem” (!?) do Chile...
Mas a expedição Brouwer/Herckmans ao Chile deu alguns resultados. A Espanha teve que gastar extraordinárias somas para construir e/ou (re)equipar fortins em toda a região. Tanto do Vice-Reino do Peru quanto do próprio Reino foram enviados consideráveis reforços humanos e materiais. A cidade de Valdívia — que virou o ponto mais fortificado das Américas! — foi reconstruída do zero. E “aventura chilena” motivou uma obra em holandês do século XVII, depois traduzida para várias línguas e que nunca mais deixou de ser reeditada (ver acima).
Intelectual sob a armadura de guerreiro, Herckmans aproveitou essa trepidante estada nas costas chilenas para igualmente registrar algumas observações sobre os costumes e a língua dos mapuches, anotações essas ainda hoje estudadas Mundo afora.


Espanhóis queimaram o cadáver de Brouwer


Foi como vice-almirante secreto que Herckmans acompanhou Brouwer ao Chile. Isto porque o organiza dor regional da expedição, o conde João Maurício de Nassau-Siegen, temia que o idoso almirante falecesse durante a árdua aventura.
Com poucos dias, a pequena frota, saída do Atlântico para entrar no Pacífico, contornou o Cabo Horn (Estreito de Magalhães). Logo depois, desembarcavam os holandeses na ilha de Chiloé, fazendo pacto com os indígenas araucanos (mapuches), para que ajudassem a recolonizar Valdívia. Depois de incríveis peripécias, o almirante Brouwer faleceu, em 7/8/1643, aos 62 anos. Herckmans, de apenas 47, mostrou então seus papéis secretos aos companheiros e assumiu o comando geral. Em 24/8/1643, as tropas de Herckmans desembarcaram nas ruínas de Valdívia, para fundar novo assentamento holandês, aí sepultando o corpo de Brouwer, cujo nome foi dado à novel colônia [Brouwerhaven = Porto de Brouwer].
Quando, com muita dificuldade, os espanhóis retomaram Valdívia, estavam tão irritados que se vingaram ferozmente da razzia de Herckmans e das perdas anteriores: arrancaram da cova o cadáver de Brouwer e solenemente o incendiaram.
Versado em línguas, Herckmans entendia razoavelmente (e traduzia para os soldados) as ofensas que, da frota inimiga, lhes lançavam os irados espanhóis, no melhor estilo hijos de la puta [está no relato!]. Mas os comandantes e praças holandeses, alvos desses palavrões, divertiam-se à beça, por verem os hispânicos irritados com os ataques batavos — os quais, de fato, lhes causaram muitos prejuízos.

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Publicado na última página do jornal A União, de João Pessoa, PB, em primeiro de novembro de 2009
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Sunday, October 25, 2009

ELIAS HERCKMANS E... REMBRANDT



BELA E RARA GRAVURA DE REMBRANDT ILUSTROU
UM DOS LIVROS DO FUTURO GOVERNADOR DA PARAÍBA

Apenas seis livros foram ilustrados pelo grande artista holandês Rembrandt — e um deles é o Elogio da Navegação (1634), de Elias Herckmans, que logo depois governaria a Paraíba por três anos (1636-1639). Essa gravura (de 1633) intitula-se “A Nave da Fortuna” e exemplares remanescentes do livro são hoje disputados, a peso de ouro, por colecionadores e antiquários de todo o Mundo.

Livro do governador Elias Herckmans foi
ilustrado pelo grande pintor holandês Rembrandt



Evandro da Nóbrega
ESCRITOR, JORNALISTA, EDITOR

[druzz@reitoria.ufpb.br]

O maior pintor holandês só ilustrou seis livros — e um deles
era de autoria do governador “neerlando-paraibano”

Continuamos, hoje, a fazer mais algumas revelações — totalmente desconhecidas pela esmagadora maioria dos paraibanos — em torno do terceiro Governador holandês da Paraíba.
Foi ele Elias Herckmans, nascido em Amsterdam (1596), falecido em Recife (1644) e que governou nossa Capitania entre 1636 e 1639.
Pouquíssimos por aqui sabem, por exemplo, que certa obra literária de Herckmans viu-se ilustrada por uma depois célebre e raríssima gravura do maior dos pintores holandeses — um dos maiores artistas de todos os tempos, o já então famosíssimo Rembrandt Harmenszoon van Rijn, nascido em Leiden (1606) e falecido em Amsterdam (1669).
Em toda a sua relativamente longa vida, Rembrandt somente ilustrou seis livros — e um deles era de autoria do futuro Governador holandês da Capitania da Paraíba, Herckmans. Este, junto com Rembrandt, Barlaeus, Vossius, Grotius, Vondel, Huygens, João Maurício de Nassau-Siegen e muitos outros luminares, ajudaram a construir o Século de Ouro dos holandeses.
Dizendo de outra forma (e repetindo à exaustão, só para reforçar): um fato pouco conhecido entre nós, a respeito de Herckmans, é que um livro seu veio a ser uma das seis únicas obras a serem ilustradas pelo mais genial dos pintores holandeses, Rembrandt.
Essa obra herckmaniana, grandemente enriquecida por uma rembrandtesca gravura, foi escrita em holandês do século XVII e ainda hoje ostenta inegável valor literário. Intitula-se Der Zee-vaert Lof [= “O elogio da navegação”] e se viu publicada originalmente em Amsterdam no ano de 1634.
Entre outros trabalhos, Herckmans é autor da notável Descrição geral da Capitania da Paraíba [Generale Beschrjvinge]. Graças a esse relatório, ao Elogio da navegação, ao Relato histórico sobre as sangrentas ocorrências na Rússia durante os Smútnoye Vryêmya [= o Tempo dos Distúrbios do Principado da Moscóvia] e a outras obras que nos legou, suas contribuições históricas, etnográficas, geográficas etc jamais deixarão de ser estudadas, em várias partes do Mundo.
Se Herckmans não se houvesse notabilizado 1) pela Descrição Geral da Capitania da Paraíba; 2) por outras realizações intelectuais em termos de poesia, dramaturgia, Historiografia e Literatura; 3) por sua incrível aventura na Rússia (contada domingo passado, nesta mesma página); 4) por sua presença no Nordeste brasileiro como diretor da Companhia holandesa das Índias Ocidentais, especialmente como Governador da Capitania da Paraíba; e 5) por sua razzia, com o almirante Hendrik Brouwer, nas costas chilenas, contra possessões espanholas — nem assim deixaria jamais de ser frequentemente citado em obras já surgidas e a surgirem ao redor do Mundo.
Herckmans não só consta de quase todos os bons dicionários biobibliográficos holandeses, como teve a sorte de o seu Elogio da navegação haver sido um dos seis livros, na História, a contar com uma ilustração de Rembrandt. De fato, Der Zee-vaert lof exibe à página 97 bela gravura in folio datada de 1633 e assinada pelo artista, nascido em Leiden, sim — mas radicado em Amsterdam, terra natal de Herckmans.

Uma raridade bibliográfica

Exemplares remanescentes dessa raridade bibliográfica, constituída pelo livro de Herckmans ilustrado por Rembrandt, são de há muito disputados a peso de ouro por antiquários e colecionadores. E isto se dá, sejamos imparciais, justamente por causa da presença do rembrantesco desenho, intitulado “A Nave da Fortuna” — e não somente por causa dos méritos literários de Herckmans. Estes, no entanto, não deixam de existir, mesmo sob o fulgor da arte e do renome de Rembrandt.
No livro, apenas uma das 18 gravuras é de Rembrandt van Rijn. As demais ilustrações são de outro artista, não tão célebre, Willem Basse.
E há esta ironia na História: apesar de contar com um livro ilustrado por Rembrandt, o “nosso” Elias Herckmans nunca teve um retrato pintado, ou por Rembrandt ou por qualquer outro artista, ao que se saiba (não se conhecem retratos seus).
Em contrapartida, abundam retratos de Gaspar Barlaeus, autor de Rerum per octennium in Brasilia (Feitos recentemente praticados etc). Mas Barlaeus — bem mais conhecido que Herckmans — nunca teve qualquer de seus numerosos livros ilustrado por Rembrandt.

Se Você dispuser de 30 mil dólares livres...

O Elogio da navegação de Herckmans conta em seis tomos os feitos dos navegadores desde... a Arca de Noé, destacando as viagens marítimas de Portugal, Espanha, Inglaterra et alia, até as conquistas marítimas holandesas.
É nas partes IV e V do poema que Herckmans apresenta os feitos holandeses nas Índias Orientais/Ocidentais, inclusive no Brasil.
“Em seis tomos” não significa que a obra preencha mais de um volume: trata-se de um livro só, com 184 páginas e ótimas notas históricas.
Se Você realmente quer ter em suas estantes um exemplar de tal obra de Herckmans, deve verificar se lhe sobram US$ 30 mil e adquiri-la, via Internet — digamos, no Antiquariaat het Bisschopshof.
Está, como se diz, “dentro do preço de mercado”.
Basta lembrar que, em 1999, a famosa casa de leilões Christie’s, de Londres, que só leva a pregão autênticas (e caríssimas) raridades, colocou à venda precioso lote, encabeçado justamente por um exemplar de Der Zee-vaert Lof.
Referindo-se à inclusão da gravura de Rembrandt, o estudioso Borba de Moraes reconheceu haver ela valorizado em muito o livro-poema de Herckmans (para além de se tratar de obra raríssima). Exemplares remanescentes podem ser encontrados no Rijkmuseum de Amsterdam, na Biblioteca da Universidade de Leiden (Holanda), no Brasil (onde há pouquíssimas cópias) e em bibliotecas especializadas da Europa e dos EUA.

Como Herckmans convenceu Rembrandt?!

A pergunta sempre foi: como Herckmans convenceu Rembrandt a ilustrar seu livro?
Nossa modesta pesquisa aponta numa direção (corrija-nos quem mais souber): Herckmans, como Rembrandt, era amicíssimo do notável rabino, escritor, impressor, editor e diplomata luso-judeu Manoel Dias Soeiro ou Manassés ben Israel (1604–1657).
Manassés instalou a primeira tipografia hebraica em Amsterdam e Rembrandt pintou seu retrato.
Eram vizinhos em Vlooienburg, o bairro judeu de Amsterdam.
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[Material publicado na última página do jornal A União,
em João Pessoa, Paraíba, domingo, 25 de outubro de 2009]
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