Sunday, November 08, 2009

PEQUENA HISTÓRIA DO MURO DE BERLIM



Símbolo da Guerra Fria, o incrível Muro de Berlim — cuja queda se deu exatamente há duas décadas, num dia 9 de novembro como este — durou quase 30 anos e aumentou as tensões entre os EUA e a URSS



Evandro da Nóbrega

ESCRITOR, JORNALISTA, EDITOR

http://druzz.blogspot.com

druzz.tjpb@gmail.com



Nas páginas centrais deste Caderno Especial de A União, W. J. Solha felizmente já nos brindou com sua visão mágico-fantástica da Queda do Muro de Berlim, que faz 20 anos neste 9 de novembro de 2009. Aqui, nesta última página, o leitor encontrará abordagem mais factual do que foi o Muro — e por que ele caiu.


Hoje, dia 9, na capital alemã, haverá grandes comemorações — iniciadas de véspera, aliás, pelo show da popularíssima banda irlandesa U2, a qual sempre se aliou a causas políticas e humanitárias.


Por esta e outras, já se vê que não se trata apenas de uma comemoração da Alemanha, mas de praticamente todo o Mundo, em especial os chamados países democráticos — alguns dos quais, em verdade, vivendo em regime de democradura.


O Muro de Berlim, que media uns 140 km, constituiu o próprio símbolo da Guerra Fria, aquele tenso período que se iniciou logo depois da II Guerra Mundial e que se estendeu até a débâcle da URSS, em 1991.


Nessa fase da História da Humanidade, EUA e URSS mantiveram danosíssima queda-de-braço, alimentando guerras localizadas em várias partes do Planeta. A espada de Dâmocles da guerra nuclear (e da consequente extinção das espécies na Terra) balançava perigosamente sobre a cabeça de todos.


Foi o “estouro da manada”


Há exatamente 20 anos, em 9 de novembro de 1989, as autoridades da Alemanha Oriental não suportaram a pressão das massas e permitiram, em 9 de novembro de 1989, a visita de qualquer de seus cidadãos ao lado ocidental.


Houve como que um estouro da boiada: multidões correram para o Muro, a fim de ultrapassá-lo. Do "lado de cá", os cidadãos "ocidentais" acorreram à grande parede, a fim de confraternizar com os irmãos de há muitos separados.


E, ali mesmo, em Berlim, iniciou-se o trabalho de demolição do colosso, primeiro com canivetes, depois com picaretas, marretas e tudo o mais. Uma dramática festa. Pedaços do muro, que levou tempo para ser totalmente posto abaixo, eram guardados como lembrança.


Uma “parede antifascista”...


Os alemães ocidentais conheciam o Muro como Berliner Mauer (Muro de Berlim), ao passo que, no lado oriental, a designação oficial era mais burocrática: Antifaschistischer Schutzwall, algo como "o muro protetor contra os fascistas"). Em inglês, a expressão correta é Berlin Wall. Já os russos, outros interessados no caso, o chamavam de Byerlinskaya Stiná [= “A Parede de Berlim”].


Essa pedra, corporificada no Muro de Berlim, já havia sido cantada desde 1946, pelo primeiro-ministro britânico Churchill, quando se referiu a uma "cortina de ferro" que (então só ele) via baixar sobre o Leste europeu.


O Muro circundava toda a Berlim Ocidental. Essa parte da cidade ficou totalmente separada não só da Alemanha como da própria Berlim Oriental, sem se considerar a ainda mais longa fronteira entre as Alemanhas Oriental e Ocidental.


A derrubada do muro abriu caminho para a reunificação da Alemanha, materializada formalmente a 3/10/1990.


A fuga oriental de cérebros e de mão-de-obra


O Muro de Berlim durou de 1961 a 1989, por quase 30 anos. Dispunha de torres de guarda, não tendo sido poucos os que encontraram a morte tentando escalar as altas paredes de concreto para deixar o "paraíso oriental" e ingressar no "céu capitalista".


Tudo começara quando Berlim se viu ocupada por exércitos russos, americanos, ingleses e franceses. O Tratado de Potsdam deu a cada parte o governo de uma das zonas. Mas Berlim era caso especial: sediava o Conselho dos Aliados, ficando na zona russa da Alemanha. Os conflitos não demoraram a surgir.


Houve, então, uma "Berlim Oriental" e uma "Berlim Ocidental", como logo em seguida haveria uma Alemanha Oriental (a República Democrática Alemã, RDA) e a República Federal da Alemanha (RFA), esta com capital em Bonn.


Os métodos empregados pelos novos patrões soviéticos, na Alemanha, eram os mesmos vigentes na URSS, incluído o uso das forças armadas e da polícia secreta para controlar tudo. Aí veio a crise pela escolha de uma nova moeda alemã, resultando no bloqueio de Berlim, pelos soviéticos, em 1948: nada podia entrar na cidade.


Os demais aliados tiveram que inventar uma espécie de "ponte aérea" para abastecer Berlim. Os protestos fizeram com que o bloqueio fosse suspenso em 1949. Em fins desse mesmo ano, surgia oficialmente a Alemanha Oriental (RDA), na prática gerida pela URSS.


Do "lado de cá", a Alemanha Ocidental (RFA) fazia o contrário: seguia exitosamente o caminho capitalista, inclusive com eleições. De modo que, já em 1950 (e até 1952), iniciou-se a "corrida" de "orientais" para a parte germano-ocidental.


Se a fronteira ficasse aberta, continuaria o êxodo dos "alemães orientais" para a Alemanha Ocidental — uma espécie de corrida de mão-de-obra e de cérebros para o capitalismo que já desfalcara o "lado russo" de uns 3,5 milhões de cidadãos.


Mesmo depois de construído o Muro, cerca de 5 mil "orientais" tentaram escapar do "lado de lá", morrendo uns 200. Na parte alemã, de regime soviético (e onde os cidadãos claramente desejavam que as tropas russas voltassem para casa, isto é, para a URSS), as indústrias foram todas estatizadas. Enquanto isso, os EUA e outros aliados acenavam com o Plano Marshall, de reconstrução capitalista do país.


O grave tema chegou a ser tratado

pessoalmente por Stálin e Khrushtchov


O caso da fuga de alemães orientais para o lado ocidental chegou a ser levado ao próprio Stálin, que, a essa altura já totalmente paranóico, determinou o rígido fechamento das fronteiras.


Em 1955, alguns passes especiais para visitas ao "outro lado" ainda eram permitidos. Mas, no ano seguinte, tudo se fechou realmente na fronteira entre os "dois países", que, idealmente, era um só, mas tinha moedas diferentes. Em Berlim, porém, tais restrições não eram tão rígidas quanto depois passaram a ser.


Os EUA começaram a dizer abertamente, então, que a URSS não suportava a comparação feita naturalmente pelos cidadãos entre a prosperidade do lado ocidental com a relativa pobreza do lado oriental — piorada ante as defecções da inteligentsia germano-oriental em prol da RFA. A RDA respondia, entre outras coisas, que os emigrantes eram covardes, que só pensavam na boa-vida capitalista, deixando seus irmãos sozinhos e em maiores dificuldades.


A construção do muro — precedida em 1961 pela instalação de arame farpado em quase toda a "fronteira" — foi aparentemente sugerida pelo próprio premier soviético Nikita Khrushtchov [pronuncia-se rrusshtchióf].


Sua construção iniciou-se ainda em agosto desse mesmo ano. Para isto, tropas germano-orientais bloquearam as passagens ainda abertas e trabalhadores chegaram em caminhões, com largos blocos de concretos. Uma ordem era atirar em quem se opusesse à estranha construção.


Um dos primeiros resultados disto é que muitas famílias alemães ficaram separadas, com integrantes em ambos os lados do Muro. Protestos se iniciaram em várias partes do Mundo, piorando ainda mais (se isto era possível) o clima da Guerra Fria — mas as autoridades da Alemanha Oriental fizeram ouvidos de mercador.


A queda do Muro

& a derrocada

da URSS


Em 1963, o presidente americano Kennedy visitou o Muro de Berlim e disse, em alemão, "Ich bin ein Berliner!" (Sou um berlinense!"). Mas uma coisa são as boas intenções e, outra, a realidade político-estratégica da realista diplomacia mundial. O próprio governo americano revelou depois: defenderia os alemães ocidentais e não se meteria com a vida dos orientais. Terminou por reconhecer o Muro como fato consumado.


A bem da verdade, as unidades americanas em Berlim até respiraram aliviadas ao verem que, com a construção da big wall, diminuíra consideravelmente o perigo de tropas germano-soviéticas as atacarem, visando à retomada de toda Berlim...


De todo modo, os EUA, sob pressão da Alemanha Ocidental e França, aumentaram em muito sua presença militar em Berlim. E, do lado oriental, um dos "bons resultados" do Muro foi uma relativa recuperação econômica.


Como era uma contradição dentro de uma contradição, o Muro não poderia mesmo subsistir — como não subsistiu o regime antidemocrático que, local e mais remotamente, lhe servia de suporte. Primeiro porque baseado nas verdades absolutas de um Partido único e, depois, porque já trazia em seu cerne, como diria o próprio Marx, o germe mesmo de sua negação dialética...


E tenha em mente: o Muro de Berlim era algo bem diverso — mas algo bastante diverso mesmo — do que é, hoje, o muro construído pelo Estado de Israel para diminuir os irracionais ataques de terroristas suicidas a seus cidadãos.

Mas esta já é outra história.


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[Este artigo foi originalmente publicado no Caderno Especial com que o jornal A União, de João Pessoa (PB), assinalou, em em 8 de novembro de 2009, a passagem dos 20 anos da queda do Muro de Berlim, a 9 de novembro de 1989]

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SIVUCA EM DUPLO RELANÇAMENTO


Depois do magnífico álbum da UFPB,

com partituras de suas obras sinfônicas,

músico tem CD e DVD relançados

pela gravadora Biscoito Fino


Evandro da Nóbrega

ESCRITOR, JORNALISTA, EDITOR

http://druzz.blogspot.com

druzz.tjpb@gmail.com



Q

uando lançou, em meados de abril deste ano, o álbum Sivuca - Partituras/Scores, com as partes completas para orquestra sinfônica, orquestra de cordas e quinteto de cordas (todas de autoria do grande músico paraibano), o reitor da UFPB, professor e economista Rômulo Soares Polari, marcava um dos pontos altos e inesquecíveis de sua administração.


A edição do álbum — lançado em concerto da Orquestra de Câmara da Universidade, com a participação do acordeonista Toninho Ferragutti, nas festas pelos 50 anos da Instituição — tornou-se possível graças aos esforços conjuntos do próprio reitor, vice-reitora Yara Matos, musicistas Carlos Anísio, Radegundis Feitosa e Marcílio Onofre, além da Editora Universitária e, naturalmente, da viúva do músico, a compositora Glorinha Gadelha.


Insista-se na importância de tal publicação, especialmente para a Musicologia e a História da Música paraibana/brasileira, haja vista a repercussão que o álbum vem obtendo nos mais diferentes meios de todo o País e no Exterior.


Aproveite-se o ensejo para esclarecer em definitivo: não têm o mais mínimo fundamento as "informações" de que o "acervo" de Sivuca (1930-2006) haja sido "doado" por sua "primeira-dama", Glória Gadelha, ao Instituto Joaquim Nabuco, de Recife (PE).


O autêntico acervo sivuquiano, preservado há anos pela própria Glorinha, acha-se perfeitamente intacto. Pertence à Paraíba e — anotem bem — integra(rá) as coleções dos:


1) Memorial Sivuca, a ser construído, pelo Governo do Estado, com apoio do MinC (projeto em andamento), num grande espaço verde, em João Pessoa, com teatro interno, biblioteca especializada, salas para cursos de música, sala para leitura das partituras do Mestre, museu, cafeteria, salas audiovisuais, espaço para eventos nos jardins externos etc, além do Memorial "vivo" propriamente dito (não apenas burocrático); e


2) Memorial Sivuca, este em sua amada terra natal, Itabaiana (prédio-sede já assegurado), e para onde irão muitos objetos e os restos mortais do grande Sivuca, segundo compromisso assumido (maio de 2007) por Glorinha Gadelha, com apoio da prefeitura local, do deputado Marcondes Gadelha e do Governo do Estado. Recentemente, também em Itabaiana, a prefeita Dona Dida inaugurou o Sivuca Café Cultural, que não deve ser confundido com o Memorial Sivuca da mesma cidade.


Meses antes de falecer, Sivuca separou originais de partituras sinfônicas suas, para que Glorinha as entregasse ao Instituto pernambucano. Foi assim cumprida uma de suas últimas vontades, sem prejuízo para nosso Estado — até porque essas partituras se eternizaram no álbum da UFPB. Sivuca sempre dizia: Recife foi sua grande universidade musical, seu meio acadêmico, onde bem se preparou para enfrentar o mundo.


Paraíba, Pernambuco

e o Mundo


Sivuca fez muitos amigos em Recife, onde se fixou aos 15 anos de idade — e onde também realizou arranjos e muitos outros trabalhos, novamente a partir de 1985, quando, como explica Glorinha na Apresentação do álbum, “recebeu convite do maestro Eugene Egan, regente da Orquestra Sinfônica do Recife, para escrever uma peça [sinfônica] e apresentá-la no palco do Teatro Santa Isabel”.


Relançamentos

pela gravadora

Biscoito Fino


A prestigiosa gravadora Biscoito Fino, de cujo catálogo já constavam outras obras de Sivuca, vem de relançar um CD e um DVD do notável paraibano universal.


Tudo isto faz parte do diuturno e elogiável esforço de Glória Gadelha para preservar a memória do marido. Glorinha obteve recentemente, junto a essa gravadora (www.biscoitofino.com.br), o relançamento de dois fonogramas do músico itabaianense-universal, já nas lojas:


1) o CD Enfim solo — em que Sivuca toca piano, violão e sanfona, originalmente lançado, em 1997, pela gravadora Kuarup (a nova capa traz uma ilustração de 2003, de autoria do artista cearense C. Einstein); e


2) o DVD O Poeta do Som, mantidos capa e encarte originais, além de belo texto do escritor, poeta e acadêmico Sitônio Pinto.


O CD Enfim solo — produzido por Mário de Aratanha, com arranjos e direção musical de Sivuca — deveu-se a uma ideia original de Glória Gadelha. E virão brevemente outros relançamentos de CDs que já não estão mais no mercado.


A gravadora brasileira Biscoito Fino foi criada em 2001 por Kati Almeida Braga e Olivia Hime. Dedica-se exclusivamente à música de altíssima qualidade. Assim é que muitos expoentes da MPB já foram por ela lançados, ultrapassando mais de 150 excepcionais realizações no universo sonoro nacional.

"De saraus assim

é que o Pixinguinha

e o Radamés Gnatalli

gostavam tanto"


O relançamento da gravadora Biscoito Fino mantém o primoroso texto do encarte escrito pelo jornalista e crítico Mário de Aratanha, dono da extinta gravadora Kuarup, selo responsável pelo lançamento original de Enfim solo, em 1997.


Grande produtor e diretor musical, além de criador de primoroso acervo da MPB, Aratanha diz aí coisas maravilhosas sobre Sivuca, um dos mais completos músicos da contemporaneidade mundial (ressalve-se que Eric Petersen, por ele adiante citado, faleceu no mês de setembro passado, em Odense, Dinamarca):


"A imagem que se tem de Sivuca é a daquele sanfoneiro albino da Paraíba, que começou em rádio no Recife, correu o mundo tocando com Miriam Makeba e Harry Belafonte, fazendo samba e jazz, forró e musette, choro e calipso.


"Solista carismático, virtuose em vários instrumentos, arranjador do quarteto sinfônico, Sivuca sempre deu preferência aos conjuntos, às formações maiores, aos arranjos ricos em vozes diferentes. Mas quem não se lembra quando, em suas apresentações, Sivuca fica sozinho no palco e ataca na sanfona o Quando me lembro, de Luperce Miranda, ou a Tocata em ré menor, de Bach? Ponto alto de virtuosismo que empolga e prepara a volta do conjunto para a segunda parte... Pois este Sivuca só se entrevia.


"Nos últimos anos, quase que paralelamente com o desenvolvimento de seus arranjos sinfônicos, o sanfoneiro se dedicou mais a Bach e a Pixinguinha na sanfona só, gerando um embrião de repertório para este disco, ideia de sua companheira Glorinha Gadelha. ‘Sivuca está cada vez melhor’, dizia ela, ‘Tem que gravar este homem sozinho no estúdio’...


"Pois lá fomos nós, em três etapas, de julho de 95 a julho de 97. Primeiro ele gravou sanfona só: Luperce e o Bach, mais o Pixinguinha e duas valsas, uma brasileira, Subindo ao céu (a pedido de Janine Houard), e outra dinamarquesa, Véu de grinalda (‘Meu amigo Eric Petersen vai chorar quando ouvir esta’, disse Sivuca, esfregando as mãos). Em setembro de 96, ele levou o violão e a sanfona, e gravou em multicanal o choro em homenagem ao Dino 7 Cordas e Em nome do amor, de Glória Gadelha. Aproveitou para refazer o Pixinguinha e criar de improviso o pot-pourri de frevos, lembrando o velho Recife de tantos anos atrás.


"Aliás, falando em Recife, um parêntesis. Fui há anos ao Recife com Sivuca para uma gravação. Pois lá as pessoas o param nas ruas, os motoristas o saúdam pela janela: ‘Ô, sanfoneiro!’. [...] "Voltamos a estúdio para finalizar o CD, e aí, além do Aboio e do Forró praieiro, vieram as maiores surpresas: o pianista originalíssimo de Da cor do pecado, Guacira e Aquariana, e o cantor emocionante de Canção que se imaginara, em memória da amiga Nara Leão, composta com Paulinho Tapajós na noite em que ela se foi.


"No meio das gravações, de vez em quando Sivuca confessava que se sentia ‘meio nu’ tocando solo ou com poucos instrumentos. Mas aos poucos o repertório foi crescendo, e nosso sanfoneiro se empolgando: ‘Hoje, eu amo este Enfim, solo intimista. Não me sinto só, me sinto numa sala rodeado de amigos, mostrando o que tenho de melhor dentro de mim. É de um sarau, de uma noitada dessas de que o Radamés e o Pixinguinha gostavam tanto... Dessas em que o dia amanheceu e a gente nem sentiu’."


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[Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal A União, de João Pessoa (PB), em 8 de novembro de 2009]


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Monday, November 02, 2009

A ‘AVENTURA CHILENA’ DE ELIAS HERCKMANS


PROVOCANDO A IRA DOS ESPANHÓIS
O célebre almirante holandês Hendrik Brouwer, a quem Elias Herckman, então já ex-governador da Capitania da Paraíba, sucedeu como comandante geral da expedição à ilha de Chiloé e às ruínas de Valdívia. Herckmans sepultou Brouwer nas costas do Chile, sucedendo-o como almirante da expedição — e voltaria depois a Recife, onde morreu (e onde foi enterrado). Mas, em Valdívia, o cadáver de Brouwer foi arrancado da cova e incendiado pelos espanhóis, irritadíssimos com a razzia da dupla de almirantes neerlandeses e seus soldados/marinheiros.

UMA EXPEDIÇÃO RECHEADA DE PERIPÉCIAS
Mapa do arquipélago de Chiloé, nas costas do Chile, uma das primeiras possessões tomadas aos espanhóis pela expedição de Hendrik Brouwer e Elias Herckmans ao extremo sul das Américas. [Se Você clicar em qualquer das ilustrações deste blog, poderá ver a imagem ampliada e seus detalhes]


Primeiro como ‘vice-almirante secreto’ e, depois, como almirante tout court, Elias Herckmans deu muito trabalho aos espanhóis nas costas chilenas


Evandro da Nóbrega
ESCRITOR, JORNALISTA, EDITOR
[druzz@reitoria.ufpb.br]



Este artigo é também publicado nos seguintes sites:

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Com o almirante Hendrik Brouwer, ex-governador holandês da Paraíba participou de nova aventura — dessa vez nas costas chilenas


Elias Herckmans (1596-1644), terceiro governador holandês da Paraíba, meteu-se em diversas aventuras — guerreiras, administrativas, poéticas, literárias — aqui e alhures: na Rússia, Holanda, Pernambuco, sertões nordestinos... E, finalmente, houve a (também por aqui pouquíssimo conhecida) “aventura de Herckmans no Chile”.
Não podia ficar parado alguém com a energia intelectual e física de Herckmans. Depois de governar da Paraíba por três anos (1636-1639), ele aqui ainda esteve, vindo de Recife, para realizar a famosa expedição ao interior desta e outras Capitanias. O relato dessa sua ida ao hinterland foi publicado não em sua importantíssima Descrição geral da Capitania da Paraíba, concluída antes de 1640, mas no ainda mais famoso livro de Gaspar Barlaeus, Rerum per octennium in Brasilia, de 1647.


E depois da incursão aos Sertões nordestinos?


A expedição sertanejo-nordestina de Herckmans ocorreu para que esse idealista mostrasse serviço à Companhia Holandesa das Índias Ocidentais — e mesmo porque ele era um espírito inquieto, aventureiro, ávido por novidades. Mas nada rendeu, em termos de metais preciosos, embora tenha resultado em valiosas informações adicionais sobre a vida nos sertões nordestinos.
Herckmans participaria de incursão ainda mais célebre: a que realizou, com o almirante Hendrik Brouwer, às costas do Chile, para atacar possessões dos espanhóis. A ordem da Companhia holandesa era atacar o inimigo em suas próprias fontes de riqueza, causando-lhes o maior dano possível, com a destruição de colônias, fortes e benfeitorias, além da pilhagem a seus carregamentos de ouro, prata, madeira etc.


Nassau, Brouwer & Elias Herckmans


Herckmans achava-se em Recife, mais ou menos subaproveitado como diretor, quando, em 1642, chegou a Pernambuco o já então afamado almirante, explorador e administrador colonial Hendrik Brouwer (1581-1643). Este já prestara, desde 1606, destacados serviços à Holanda, no Japão e noutras áreas de ação da Companhia das Índias Orientais. Largou o importante cargo de chefão no Oriente e veio a Recife, ver o que seria possível fazer nas Índias Ocidentais.
O governador do Brasil holandês, João Maurício de Nassau-Siegen, forneceu aos navios de Brouwer as provisões necessárias para que efetivasse o ataque às costas do Chile, com a finalidade de implantar um entreposto comercial avançado nas ruínas de Valdívia. A “aventura chilena” é uma das muitas razões pelas quais "nosso" governador Herckmans jamais deixará de ser citado pela História. Não em notas de rodapé — mas como protagonista.


Uma nova edição da Descrição Geral da Capitania da Paraíba


Em mais uma prova de que tudo em torno destes temas desperta interesse, Heitor Cabral, dono da Editora Linha d’Água, lançará em breve nova edição da Descrição de Herckmans.
A primeira tradução/edição genuinamente paraibana da Generale beschrijvinge van de Capitanie Paraiba somente saiu em 1982, por iniciativa dos historiadores Wellington Aguiar e Marcus Odilon Ribeiro Coutinho, também autores do Prefácio e imperdíveis Notas.


Um relato em diversas línguas


A aventura chilena de Brouwer & Herckmans é relatada não por um, mas por diversos livros. O primeiro relato dessas peripécias saiu em 1646, na Holanda (Amsterdam), pela famosa tipografia de Johanes Blaeu, sob o título (em holandês do século XVII) de Narração histórica da viagem feita do Leste do Estreito de Le Maire às costas do Chile, por ordem de Sua Excelência, o General Hendrik Brouwer etc nos anos de 1642 e 1643.
Embora livro de autoria anônima, não tenho dúvidas de que por lá de alguma forma andou o dedo de Herckmans. Isto por existirem na obra passagens particularmente cultas, a marca dele. Sairiam depois outros relatos, inclusive em 1647, na primeira edição da famosa obra de Gaspar Barlaeus, Rerum per octennium in Brasilia [= Feitos recentemente realizados etc], a fonte mais importante para a História do Brasil holandês, ao lado dos relatórios oficiais e das memórias deixadas por administradores neerlandeses, dentre as quais se destaca a própria Descrição geral da Capitania da Paraíba, de "nosso" Herckmans.
A crônica dos acontecimentos no Chile sairia depois em alemão, inglês, francês, espanhol e noutras línguas, inclusive em reedições holandesas, atendendo ao real interesse que o grande público sempre demonstrou ante esses relatos de viagens marítimas e conquistas de terras exóticas. Em minha humilde biblioteca, disponho desses relatos em diferentes idiomas — e, da leitura deles, salta um Herckmans vívido: ativo, inteligente, culto.


Herckmans “decapitado” na Inglaterra (!?)...


De início, os ataques de Brouwer e Herckmans no Chile surtiram efeito, com a ocupação do arquipélago de Chiloé, a tomada de fortes e o assédio à embocadura do rio Valdívia. Foi só em 1643 que, morto Brouwer, Herckmans pôde ocupar as ruínas da estratégica cidade do mesmo nome (ver abaixo).
De início colaborativos, os indígenas se recusaram depois a ajudar os holandeses, embora combatessem renhidamente os espanhóis. Diante disso, por fim, e tendo ouvido os comandantes militares sob suas ordens, Herckmans decidiu abandonar as costas chilenas, retornando a Pernambuco em 28/10/1643. Em Recife, responsabilizado por aquilo que seus chefes consideraram “o desastre do Chile”, certamente escapou de ser levado a um conselho de guerra por haver falecido no ano seguinte, alquebrado por tantas aventuras e incompreensões. Mais tarde, um livro em espanhol, todo errado, referiu que Herckmans e Brouwer teriam sido... decapitados na Inglaterra (?!), depois de “voltarem” (!?) do Chile...
Mas a expedição Brouwer/Herckmans ao Chile deu alguns resultados. A Espanha teve que gastar extraordinárias somas para construir e/ou (re)equipar fortins em toda a região. Tanto do Vice-Reino do Peru quanto do próprio Reino foram enviados consideráveis reforços humanos e materiais. A cidade de Valdívia — que virou o ponto mais fortificado das Américas! — foi reconstruída do zero. E “aventura chilena” motivou uma obra em holandês do século XVII, depois traduzida para várias línguas e que nunca mais deixou de ser reeditada (ver acima).
Intelectual sob a armadura de guerreiro, Herckmans aproveitou essa trepidante estada nas costas chilenas para igualmente registrar algumas observações sobre os costumes e a língua dos mapuches, anotações essas ainda hoje estudadas Mundo afora.


Espanhóis queimaram o cadáver de Brouwer


Foi como vice-almirante secreto que Herckmans acompanhou Brouwer ao Chile. Isto porque o organiza dor regional da expedição, o conde João Maurício de Nassau-Siegen, temia que o idoso almirante falecesse durante a árdua aventura.
Com poucos dias, a pequena frota, saída do Atlântico para entrar no Pacífico, contornou o Cabo Horn (Estreito de Magalhães). Logo depois, desembarcavam os holandeses na ilha de Chiloé, fazendo pacto com os indígenas araucanos (mapuches), para que ajudassem a recolonizar Valdívia. Depois de incríveis peripécias, o almirante Brouwer faleceu, em 7/8/1643, aos 62 anos. Herckmans, de apenas 47, mostrou então seus papéis secretos aos companheiros e assumiu o comando geral. Em 24/8/1643, as tropas de Herckmans desembarcaram nas ruínas de Valdívia, para fundar novo assentamento holandês, aí sepultando o corpo de Brouwer, cujo nome foi dado à novel colônia [Brouwerhaven = Porto de Brouwer].
Quando, com muita dificuldade, os espanhóis retomaram Valdívia, estavam tão irritados que se vingaram ferozmente da razzia de Herckmans e das perdas anteriores: arrancaram da cova o cadáver de Brouwer e solenemente o incendiaram.
Versado em línguas, Herckmans entendia razoavelmente (e traduzia para os soldados) as ofensas que, da frota inimiga, lhes lançavam os irados espanhóis, no melhor estilo hijos de la puta [está no relato!]. Mas os comandantes e praças holandeses, alvos desses palavrões, divertiam-se à beça, por verem os hispânicos irritados com os ataques batavos — os quais, de fato, lhes causaram muitos prejuízos.

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Publicado na última página do jornal A União, de João Pessoa, PB, em primeiro de novembro de 2009
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Sunday, October 25, 2009

ELIAS HERCKMANS E... REMBRANDT



BELA E RARA GRAVURA DE REMBRANDT ILUSTROU
UM DOS LIVROS DO FUTURO GOVERNADOR DA PARAÍBA

Apenas seis livros foram ilustrados pelo grande artista holandês Rembrandt — e um deles é o Elogio da Navegação (1634), de Elias Herckmans, que logo depois governaria a Paraíba por três anos (1636-1639). Essa gravura (de 1633) intitula-se “A Nave da Fortuna” e exemplares remanescentes do livro são hoje disputados, a peso de ouro, por colecionadores e antiquários de todo o Mundo.

Livro do governador Elias Herckmans foi
ilustrado pelo grande pintor holandês Rembrandt



Evandro da Nóbrega
ESCRITOR, JORNALISTA, EDITOR

[druzz@reitoria.ufpb.br]

O maior pintor holandês só ilustrou seis livros — e um deles
era de autoria do governador “neerlando-paraibano”

Continuamos, hoje, a fazer mais algumas revelações — totalmente desconhecidas pela esmagadora maioria dos paraibanos — em torno do terceiro Governador holandês da Paraíba.
Foi ele Elias Herckmans, nascido em Amsterdam (1596), falecido em Recife (1644) e que governou nossa Capitania entre 1636 e 1639.
Pouquíssimos por aqui sabem, por exemplo, que certa obra literária de Herckmans viu-se ilustrada por uma depois célebre e raríssima gravura do maior dos pintores holandeses — um dos maiores artistas de todos os tempos, o já então famosíssimo Rembrandt Harmenszoon van Rijn, nascido em Leiden (1606) e falecido em Amsterdam (1669).
Em toda a sua relativamente longa vida, Rembrandt somente ilustrou seis livros — e um deles era de autoria do futuro Governador holandês da Capitania da Paraíba, Herckmans. Este, junto com Rembrandt, Barlaeus, Vossius, Grotius, Vondel, Huygens, João Maurício de Nassau-Siegen e muitos outros luminares, ajudaram a construir o Século de Ouro dos holandeses.
Dizendo de outra forma (e repetindo à exaustão, só para reforçar): um fato pouco conhecido entre nós, a respeito de Herckmans, é que um livro seu veio a ser uma das seis únicas obras a serem ilustradas pelo mais genial dos pintores holandeses, Rembrandt.
Essa obra herckmaniana, grandemente enriquecida por uma rembrandtesca gravura, foi escrita em holandês do século XVII e ainda hoje ostenta inegável valor literário. Intitula-se Der Zee-vaert Lof [= “O elogio da navegação”] e se viu publicada originalmente em Amsterdam no ano de 1634.
Entre outros trabalhos, Herckmans é autor da notável Descrição geral da Capitania da Paraíba [Generale Beschrjvinge]. Graças a esse relatório, ao Elogio da navegação, ao Relato histórico sobre as sangrentas ocorrências na Rússia durante os Smútnoye Vryêmya [= o Tempo dos Distúrbios do Principado da Moscóvia] e a outras obras que nos legou, suas contribuições históricas, etnográficas, geográficas etc jamais deixarão de ser estudadas, em várias partes do Mundo.
Se Herckmans não se houvesse notabilizado 1) pela Descrição Geral da Capitania da Paraíba; 2) por outras realizações intelectuais em termos de poesia, dramaturgia, Historiografia e Literatura; 3) por sua incrível aventura na Rússia (contada domingo passado, nesta mesma página); 4) por sua presença no Nordeste brasileiro como diretor da Companhia holandesa das Índias Ocidentais, especialmente como Governador da Capitania da Paraíba; e 5) por sua razzia, com o almirante Hendrik Brouwer, nas costas chilenas, contra possessões espanholas — nem assim deixaria jamais de ser frequentemente citado em obras já surgidas e a surgirem ao redor do Mundo.
Herckmans não só consta de quase todos os bons dicionários biobibliográficos holandeses, como teve a sorte de o seu Elogio da navegação haver sido um dos seis livros, na História, a contar com uma ilustração de Rembrandt. De fato, Der Zee-vaert lof exibe à página 97 bela gravura in folio datada de 1633 e assinada pelo artista, nascido em Leiden, sim — mas radicado em Amsterdam, terra natal de Herckmans.

Uma raridade bibliográfica

Exemplares remanescentes dessa raridade bibliográfica, constituída pelo livro de Herckmans ilustrado por Rembrandt, são de há muito disputados a peso de ouro por antiquários e colecionadores. E isto se dá, sejamos imparciais, justamente por causa da presença do rembrantesco desenho, intitulado “A Nave da Fortuna” — e não somente por causa dos méritos literários de Herckmans. Estes, no entanto, não deixam de existir, mesmo sob o fulgor da arte e do renome de Rembrandt.
No livro, apenas uma das 18 gravuras é de Rembrandt van Rijn. As demais ilustrações são de outro artista, não tão célebre, Willem Basse.
E há esta ironia na História: apesar de contar com um livro ilustrado por Rembrandt, o “nosso” Elias Herckmans nunca teve um retrato pintado, ou por Rembrandt ou por qualquer outro artista, ao que se saiba (não se conhecem retratos seus).
Em contrapartida, abundam retratos de Gaspar Barlaeus, autor de Rerum per octennium in Brasilia (Feitos recentemente praticados etc). Mas Barlaeus — bem mais conhecido que Herckmans — nunca teve qualquer de seus numerosos livros ilustrado por Rembrandt.

Se Você dispuser de 30 mil dólares livres...

O Elogio da navegação de Herckmans conta em seis tomos os feitos dos navegadores desde... a Arca de Noé, destacando as viagens marítimas de Portugal, Espanha, Inglaterra et alia, até as conquistas marítimas holandesas.
É nas partes IV e V do poema que Herckmans apresenta os feitos holandeses nas Índias Orientais/Ocidentais, inclusive no Brasil.
“Em seis tomos” não significa que a obra preencha mais de um volume: trata-se de um livro só, com 184 páginas e ótimas notas históricas.
Se Você realmente quer ter em suas estantes um exemplar de tal obra de Herckmans, deve verificar se lhe sobram US$ 30 mil e adquiri-la, via Internet — digamos, no Antiquariaat het Bisschopshof.
Está, como se diz, “dentro do preço de mercado”.
Basta lembrar que, em 1999, a famosa casa de leilões Christie’s, de Londres, que só leva a pregão autênticas (e caríssimas) raridades, colocou à venda precioso lote, encabeçado justamente por um exemplar de Der Zee-vaert Lof.
Referindo-se à inclusão da gravura de Rembrandt, o estudioso Borba de Moraes reconheceu haver ela valorizado em muito o livro-poema de Herckmans (para além de se tratar de obra raríssima). Exemplares remanescentes podem ser encontrados no Rijkmuseum de Amsterdam, na Biblioteca da Universidade de Leiden (Holanda), no Brasil (onde há pouquíssimas cópias) e em bibliotecas especializadas da Europa e dos EUA.

Como Herckmans convenceu Rembrandt?!

A pergunta sempre foi: como Herckmans convenceu Rembrandt a ilustrar seu livro?
Nossa modesta pesquisa aponta numa direção (corrija-nos quem mais souber): Herckmans, como Rembrandt, era amicíssimo do notável rabino, escritor, impressor, editor e diplomata luso-judeu Manoel Dias Soeiro ou Manassés ben Israel (1604–1657).
Manassés instalou a primeira tipografia hebraica em Amsterdam e Rembrandt pintou seu retrato.
Eram vizinhos em Vlooienburg, o bairro judeu de Amsterdam.
Logo...

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[Material publicado na última página do jornal A União,
em João Pessoa, Paraíba, domingo, 25 de outubro de 2009]
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Tuesday, October 20, 2009

“MORMAÇO”, “TEMPO QUENTE” ETC — EM RUSSO

O poeta romântico russo Fyôdor Ivánovitch Tyuttchev (citado no texto abaixo), em detalhe de ilustração disponível no URL http://feb-web.ru/feb/irl/il0/il7/il7-6952.htm [Фундаментальная Электронная библиотека - Русская литература и фольклор = Biblioteca Fundamental Eletrônica - Literatura e Folclore Russos]


Atendendo a uma pergunta do leitor patoense Ismael Nóbrega sobre a postagem em torno de expressões referentes ao tempo


Evandro da Nóbrega,

escritor, jornalista, editor


Respondo agora a uma indagação do leitor (e parente) Ismael Nóbrega, de Patos, PB, ainda sobre uma antiga postagem neste Blogger, sob o título de "COMO ESTÁ O TEMPO, EM RUSSO: Algumas úteis palavras russas referentes ao tempo e ao clima".

A propósito de tal postagem nossa, diz o patoense Ismael:

— Bom. Muito bom. E como é mormaço em cirílico?

Anote aí, Ismael, please, não só este mas outros novos termos referentes ao tempo, atmosfera e sentidos correlatos:


  • mormaço = znóy = зной (tanto em russo quanto em búlgaro, idioma ainda mais conservador que o próprio russo)
  • sol de matar, sol de assar, sol fortíssimo, calor insuportável = palyashtchiy znóy = палящий зной
  • tempo mormacento, calor insuportável = járkaya nikammfórtnaya pagóda = жаркая некомфортная погода
  • “afogado” no calor do meio-dia = fpalddnyevniy znóy pagrujyeniy = в полдневный зной погружены

Esta última frase — в полдневный зной погружены — constitui, aliás, um dos versos do conhecido poema "Veja como o verde arvoredo / sob o calor do Sol mergulha" [“Смотри, как роща зеленеет, / Палящим солнцем облита”... = Smatrí, kak roshtcha zilyeneyet, / pelyáshtchimm sóntsyemm oblita... ].

São versos da lavra do grande e último poeta romântico russo Fyôdor Ivánovitch Tyuttchev (1803-1873) depois de Púshkin e Lermontov.

É a gente morrendo & aprendendo...

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Monday, October 19, 2009

"NOSSO" GOVERNADOR NA... RÚSSIA!...


A "aventura russa" de um intelectual e guerreiro neerlandês que depois seria Governador da Paraíba

Evandro da Nóbrega
ESCRITOR, JORNALISTA, EDITOR
[druzz@reitoria.ufpb.br]

Os paraibanos hão de ficar surpresos com esta revelação: certo ex-governador da Paraíba teve uma "aventura russa" bem antes de assumir o cargo.

Trata-se de Elias Herckmans (1596-1644), terceiro governador holandês da Capitania da Paraíba (entre 1636 e 1639).

Escritor, poeta, dramaturgo, marinheiro, chefe militar, administrador e aventureiro, Herckmans escreveu (ainda em 1625) importante trabalho — infelizmente pouquíssimo conhecido dos brasileiros — sobre as violentas ocorrências da primeira guerra civil da Rússia, registrada no Grão-Ducado da Moscóvia em fins do século XVI e inícios do século XVII.

Estando em Arkhangelsk, como representante comercial, Herckmans presenciou alguns episódios da sangrenta transição da dinastia ruríquida para a dinastia dos Romanov, extraordinário período da História do Principado da Moscóvia. Por conta disto, o livro de Herckmans ainda hoje é estudado não só na Rússia, mas também na Holanda, EUA, Inglaterra, França e outros países.

A obra original de Herckmans sobre tal confusão — escrita em holandês do século XVII e traduzida bem depois, já no século XIX, para o latim e o russo — ostenta título quilométrico (coisa comum à época), mas é geralmente chamada apenas de Relato histórico [Historischen Verhael].

Neste relato, há coisas pavorosas, como o enforcamento do filho menor de um falso csárevitch (= filho do czar), a fim de prevenir futuras demandas pelo trono imperial.

Esse admirável trabalho, o Relato Histórico, é infinitamente menos conhecido, entre nós, que a valiosíssima Descrição geral da Capitania da Paraíba [Generale Beschrjvinge], também de Herckmans e graças à qual a contribuição deste holandês de gênio nunca deixará de ser estudada Mundo afora, por suas ricas descrições etnográficas, históricas, administrativas etc.

Mas, fora da Paraíba e do Brasil, Herckmans é mais lembrado por aquele seu Relato Histórico sobre a primeira guerra civil russa, conhecida pelos eslavos como Smútnoye Vriêmya [= Tempo das Afições, Período dos Distúrbios, Época das Confusões]. A expressão vem da raiz eslávica smuta = comoção, distúrbio, confusão, aflição

O ‘russo’ Ilyá em livro e na revista do Conselho

O s paraibanos não fazem idéia de como "nosso" Elias Herckmans é estudado na Rússia, na Holanda e noutras partes do Planeta. Entre os eslavos, ele é mais conhecido como "Iliá Gherkman", já que, em russo, o H inicial das palavras ocidentais é normalmente substituído por um G duro (G de gato, não G de gelo).

Quando iniciei a redação de um de meus mais recentes livros — O Poeta do Brasil Holandês, sobre Gaspar Barlaeus, —vi pequena anotação de José Honório Rodrigues sobre uma obscura "aventura russa" de Elias Herckmans. Fui investigar e entrei em contato (não no Brasil, mas no Exterior) com vastíssimo material em torno desse item da riquíssima biografia de Herckmans — personalidade hoje quase tão estudada, pasmem, quanto o próprio Barlaeus, autor da mais importante "História do Brasil" holandesa, a Rerum per octennium in Brasilia, traduzida como Feitos recentemente praticados etc, em homenagem ao grande Maurício de Nassau. Como não sou propriamente analfa em russo, holandês do século XVII e latim, danei-me a ler umas obras eslavas, neerlandesas e latinas, além de outras em inglês, francês, espanhol e alemão — e o resultado foi um novo livro meu, in progress, sob o título de Um Governador da Paraíba na Primeira Guerra Civil da Rússia.

Dou conta destas duas aventuras (a de Herckmans e a minha!) em longo artigo a sair na próxima revista Paraíba Cultural, do Conselho Estadual de Cultura. O lançamento desse número da Revista será feito pela Secretaria da Educação e Cultura/Subsecretaria de Cultura durante a Noite da Cultura deste final de ano (não percam a festa, please!).

O destino de Herckmans foi marcado pela aventura. Depois de testemunhar o Tempo das Aflições no Grão-Ducado da Moscóvia, ele escreveu dramas e poemas, tornou-se famoso com seus Elogio da Navegação e Elogio da Calvície, veio governar a Paraíba. E, ainda depois, tomou parte, com o almirante Hendrik Brouwer, de nova e acidentadíssima aventura, desta vez no Chile, para morrer finalmente em Recife.

Um dos expoentes do Gouden Eeuw, o Século de Ouro dos Países-Baixos, o humanista Herckmans foi bom governador holandês da Paraíba, ao contrário do estabanado (e por isso assassinado) antecessor, Ippo Eysens. Tanto que, ao concluir seu período, o povo pediu aos chefões holandeses que permanecesse no cargo. Esse mesmo povo não poderia prever que a memória de Herckmans pudesse brilhar para sempre, graças à sua obra... literária.

LEGENDAS DAS QUATRO ILUSTRAÇÕES UTILIZADAS NA PÁGINA EM QUE SAIU ESTE ARTIGO:

ILUSTRAÇÃO 1 - ILYÁ GHERKMAN EM RUSSO DO SÉCULO XX
Acima, a obra Khroniki Smútnogo Vryemeni [Crônicas dos Tempos dos Distúrbios], um dos vários livros russos que, escritos nos séculos XIX, XX e XXI, analisam o Relato Histórico de Ilyá Gherkman (“nosso” Elias Herckmans) sobre os Smútnoye Vryêmya ou Tempo das Confusões na Rússia da sangrenta transição, de fins do século XVI para inícios do século XVII, entre as dinastias dos Rurik e dos Romanov. O Relato de Herckmans é considerado, por muitos historiadores russos, de maior valor testemunhal que o de outro holandês, Jsaac Massa — pelo fato de Herckmans ser, já então, conhecido intelectual.

ILUSTRAÇÃO 2 - ORIGINAL HOLANDÊS DO RELATO DE HERCKMANS
Eis a primeira página do importante documento legado por Herckmans à Historiografia mundial. Foi escrito em neerlandês do século XVII. É, em tradução livre do que acima se vê, o “Relato histórico dos distúrbios provocados na Moscóvia pelo príncipe Dmitry Ivânovitch, falsamente acusado de fazer-se passar pelo filho do tsar Ivan Vasilievitch”.

ILUSTRAÇÃO 3 - HERCKMANS EM RUSSO DO SÉCULO XIX
Foi só entre 1851 e 1868 que se publicaram, em São Petersburgo, as traduções latina e russa do Relato Histórico de Herckmans sobre os distúrbios na Moscóvia. Acima, o Skazányia Inostrannykhy Pisatelyey o Rossiy, izdanniya Arkheografitcheskogo Kommissiyeyu, Tom' II, Izvestiya Gollandtsev' Isaaka Massy i Il'i Gherkmanna [= Relatos de escritores estrangeiros sobre a Rússia, editados pela Comissão Arqueográfica, Tomo 2, Descrições feitas pelos holandeses Isaac Massa e Elias Herckmans]. Observe: ainda se usa a antiga ortografia cirílica, com letras tornadas obsoletas após a reforma ortográfica comunista de 1918.

ILUSTRAÇÃO 4 - EM LATIM, O VALIOSO DOCUMENTO DE HERCKMANS
O frontispício da obra, em latim, denominada originalmente Rerum Rossicarum Scriptores Exteri, a Collegio Archeographico editi, Tomus II, Isaaci Massae et Eliae Herkmanni, batavorum, narrationes [= Escritores Estrangeiros sobre a História Russa, editada pelo Colégio Arqueográfico, Tomo II, Relatos dos batavos Isaak Massa e Elias Herckmans].

[ARTIGO PUBLICADO À PÁGINA 24 (ÚLTIMA PÁGINA) DO JORNAL A UNIÃO, JOÃO PESSOA, PB, NO DOMINGO, 18 DE OUTUBRO DE 2009 ]

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Sunday, May 24, 2009

MAIS UMA DO STEVE SPIELBERG...


Contos Reais:

Tuitosfera & Iídiche



por Evandro da Nóbrega





O Autor, Evandro da Nóbrega, 63, é escritor, jornalista, editor técnico-literário e especialista em Informática/Internet/Editoração Eletrônica. Pertence à UFPB (Universidade Federal da Paraíba), ao IHGP (Instituto Histórico e Geográfico Paraibano) e ao CEE (Conselho Estadual de Cultura) do Estado da Paraíba. Tem vários livros publicados, inclusive dois em chinês/português. Autodidata em várias línguas, lê nos 20 idiomas que estuda, inclusive hebraico, árabe e iídiche, recusando, porém, o apelido de poliglota: “Ler é uma coisa; falar é outra”. Mas não reclama se o chamam de polígrafo...


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Uma versão reduzida deste artigo foi produzida para um livro da Ideia Editora, de João Pessoa, Paraíba, a pedido do editor Magno Nicolau, proprietário desta empresa editorial.


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Pergunte a alguém o que é dimetilaminofenildimetilpirazolona — e lhe dirão que a palavra não existe. Mas existe. A gente pode lê-la nas bulas de remédios desde o tempo do cachete de cibazol. Há pessoas que não acreditam na existência de algo só porque sobre tal nunca ouviram falar. Outras querem por fina força acreditar nas coisas mais improváveis. Estão aí as lendas urbanas e as teorias conspiratórias para comprovar. Por estas e outras, é preciso escrever contos reais. A realidade, por vezes, surpreende mais que a ficção. Exemplos?

Ligo meu Twitter, no celular ou micro — e lá vem a enxurrada de informações, minuto a minuto. Em microblogs oriundos diretamente deles para minha caixa postal, Barack Obama diz que daqui a pouco assina nova lei sobre os cartões de crédito; Le Monde vibra: o FED baixará previsões de crescimento econômico; Tim O’Reilly, guru da comunidade global hi-tech, crocita: “Vivemos em algo como uma bolha, não de investimento, mas de realidade”; Nicole Kidman anuncia: vai novamente à Austrália, num de seus dois aviões particulares; Angelina Jolie informa: está tomando um jato para filmar na Caixa-Prego; Beyoncé assegura: pensa em novo álbum — e dá até o título da coisa; o mais antigo jornal israelense, Haaretz [= “a Terra”] me fala sobre outra coisa antiga e interminável: o andamento de novos planos de paz no Oriente Médio; o Financial Times cita Cannes: a crise econômica atinge seriamente a produção de filmes; sua versão chinesa, o FT China, complementa: Taiwan quer investir mais no Continente; Ellen deGeneres nos convida a tomar piña colada (com ela?!) sob palmeiras de praias do Havaí; Britney Spears, do próprio busão, alardeia: está on the road para shows em cidades do interior; El País noticia: gêmeos de grávida têm pais diferentes (?!); Brooke Burke espreguiça-se às 10 h da matina, tomando café com a sogra; Ricardo Noblat alerta: o Homem do Castelo, neste momentim, depõe na Câmara; a Folha OnLine mancheteia: em crise, a Califórnia estuda estimular a economia legalizando a maconha; o Los Angeles Times anuncia vôo direto para Hoswell (a terra do disco-voador, no Novo México!); Larry King, o âncora, cumprimenta Natalie Cole pelo rim recém-ganho; Patrícia Kogut dá as dicas sobre se há algo digno de se ver na TV paga; Twittess (Tessália Serighelli, tuiteira-mor tupiniquim) fala sobre a primeira comunidade de cinema no Orkut; confessa-se chocada com o filme Do começo ao fim; e nos remete ao trailer do próprio no YouTube; Regina Pena relembra: concluiu (aff!) a tese de Doutoramento na PUC-SP... Aí chega, via o miniblog do The New York Times no Twitter, uma notícia realmente empolgante...

TEMPOS DE TUITAR

Parênteses. Para os poucos que não sabem, twitter = gorjeio, gorjear. Como sói ocorrer com os passarins. Elementar, Watson: tuiteiros gorjeiam entre si. Milhares deles me seguem (sabe-se por quê!). De minha parte, sou também follower de zilhões deles. Não dão um arroto sem que me comuniquem imediatamente: estou aqui, fazendo tal coisa e acaba de acontecer o seguinte... Aquele rapaz estava à beira do rio, em Nova York, quando caiu o avião. Pegou o celular e tuitou pra todo mundo: “Puxa, caiu um avião aqui, na água!”. No mesmo instante, todo o Planeta sabia. Antes mesmo de as TVs, jornais, portais, blogs suspeitarem. E o socorro chegou ainda mais rápido. Na Moldávia, quando pensaram em derrubar o presidente, os jovens valeram-se dos celulares tuitados e, com pouco mais, juntaram milhares de pessoas diante do Parlamento. O Twitter faz o papel de miniblog: diga o que faz agora, em pouquíssimas palavras. Também o presidente Obama, uma vez eleito, largou mais do Blackberry, seu hiperfuturista celular (que, obviamente, não podia mais continuar usando, por motivos de segurança) e passou-se pro Twitter. O homem mais poderoso da Terra é também o segundo maior usuário do Twitter e, óbvio, está no meu following tuítico. Agora mesmo, depois de falar com a tripulação do Atlantis/Nasa, ele está reunido com Wood, vendo se o nomeia para a Suprema Corte. Twitter é jornalismo-cidadão: toda e qualquer pessoa se torna repórter, jornalista, formador de opinião, analista.

ONZE MIL LIVROS ON LINE

Mas lá estava, em meu Twitter, a empolgante notícia do Times noviorquino: a Biblioteca Eletrônica “Steve Spielberg” colocou on line, gratuitamente, pelo Internet Archive, nada menos que 11 mil livros (Você leu certo, onze mil livros). A gente clica no link e vê, na edição completa, virtual do NYT: não são livros comuns. São 11 mil livros em Yiddish, digo melhor, em iídiche, língua dos judeus asquenazitas (do Centro/Leste europeu) que o doido-ruim do Hitler tentou destruir completamente (povo e idioma). Não o conseguiu, como se vê.

E constatamos isto com alívio: o iídiche esteve em ai de desaparecer de vez. Não fosse a ação de escritores como o imenso Yitzhak Bashevis-Zinger, de um lado, teimando em escrever em sua língua materna, e, de outro, intelectuais igualmente importantes, como David Grossman, o iídiche teria soçobrado há tempos. Esse David Grossman (Dovid Grosman, em iídiche) é meu amigo virtual há anos. Há mais anos ainda, comanda, entre outras, relevantíssima Lista de Discussão, na Internet, justamente sobre a língua iídiche. É o Moderador do numeroso grupo conhecido como “The Yiddish Forum”, o Fórum sobre o Iídiche. Nós todos, seus integrantes (e não são poucos!), nos comprometemos há tempos com uma causa comum: defender a continuidade do Yiddish, riquíssima expressão, a partir de certo momento histórico, da já riquíssima Cultura judaica.

DAVID GROSSMAN, AMIGO VIRTUAL

A primeira coisa que fiz, depois de ler a nota no Times, foi e-mailar para Dovid Grosman. Ele já sabia da novidade e não titutebou em me responder, na bucha, num inglês tão perfeito quanto seu hebraico e seu iídiche. Disse Grossman:

“Muitos judeus (o Povo do Livro) dedicaram suas vidas a escrever importantes e valiosos documentos. Tragicamente, muitos desses materiais viram-se queimados, destruídos... Aparentemente, haviam-se perdido para todo o sempre. Mesmo hoje em dia, pequenas tiragens de edições impressas de livros judaicos em iídiche limitam sua disponibilidade às gerações futuras. A Biblioteca Digital ‘Steven Spielberg’, do Centro Nacional do Livro Iídiche, reverteu essa tendência. Seu elogiável e recomendável projeto tornou possível o escaneamento de cópias de milhares de livros iídiches, preservados e agora gratuitamente disponibilizados on line, inclusive para a feitura de cópias em quantidades ilimitadas. Como resultado disto, muitíssimo da Literatura iídiche está retornando aos leitores. Desta forma, tão auspiciosa iniciativa deu nova e vibrante vida não apenas à língua iídiche, mas igualmente ao judaísmo e, por que não dizer, ao próprio Povo do Livro” — concluiu um emocionado David Grossman.

CEM VOLUMES POR DIA

Como no caso de dimetilaminofenildimetilpirazolona, é mesmo de não acreditar: lá estão, em reprodução eletrônica, 11 mil livros (e este número irá aumentando à proporção de uns 100 livros por dia), sobre todos os assuntos: gramáticas, dicionários, História, romances, Linguística, manuais, Matemáticas, Filologia, Literatura, Artes, ensaios, livros de ficção, jornais, revistas, periódicos, tratados de Filologia, monólogos, humorismo, glossários, fac-símiles, manuscritos, canções e letras de músicas, coleções e obras completas de muitos autores... Obras até de gente como Sholem Aleichem, Chaim Weizmann, Max Weinreich — e, claro, Yitzhak Bashevis-Zinger (nome de Singer em iídiche), judeu polaco-americano, Nobel de Literatura em 1978. Obras publicadas em Londres, Nova York e até no Brasil... Ah, tenho que lhes enviar (e é possível fazer uploads desses livros, no portal do NYBC) cópias virtuais dos livros que tenho em iídiche — o primeiro dos quais adquiri pensando tratar-se de hebraico, em vista do uso comum dos caracteres semíticos... De fato, ante um livro escrito em iídice, a primeira impressão do leigo é pensar que se trata de hebraico. Inclusive porque também se iniciam pela “última página” (para nós), como ocorre com volumes em hebraico, árabe, farsi, urdu e outras línguas, semíticas ou não. Lembram-se da clássica piada? Agatha Christie não pode publicar livros em hebraico — por ser na última página que se conhece a identidade do assassino... E isto de o iídiche igualmente ser escrito da direita para a esquerda não é problema: o portal do Centro [http://nybc.convio.net] já providenciou os recursos da escrita bidirecional e o uso do Unicode como padrão.

STEVEN SPIELBERG

O Times deu a notícia em destaque e, depois, o conhecido jornalista Noam Cohen a amplificou, porque isto significa: quase metade de TODAS as obras já publicadas em iídiche acham-se agora on line, à disposição de leitores & estudiosos de qualquer parte do Mundo. Tudo graças ao trabalho do National Yiddish Book Center [www.yiddishbookcenter.org] e do famoso Internet Archive [www.archive.org], além de voluntários nos EUA, Israel, Canadá et alia. É a Literatura de um povo tornando-se facilmente acessível, no ciberespaço, não só para falantes de iídiche, mas para toda a Humanidade. Você tanto pode ler os livros on line como copiá-los para seu HD, em vários formatos (principalmente .pdf) e imprimi-los em casa. A iniciativa foi entusiasticamente recebida pela comunidade internacional, especialmente a judaica. Constitui exemplo de como uma biblioteca sem fins lucrativos pode apoiar a Cultura, disponibilizando livros a integrantes de etnias geograficamente mui esparsas.

O texto integral de todos esses milhares de volumes, englobando a antiga e moderna Literatura iídiche, compreende o acervo do Centro Nacional de Livros Iídiches “Steven Spielberg” e está agora ao alcance de alguns toques de mouse, no URL www.archive.org/details/nationalyiddishbookcenter.

O INTERNET ARCHIVE

Trata-se de recurso único no Planeta: três milhões de páginas ao todo (e até agora), como fruto da aliança entre o Centro e outra organização sem fins lucrativos, o Internet Archive, baseado em San Francisco, Califórnia. O fundador e presidente do Centro, Aaron Lansky, considera tal feito “um momento histórico para a Cultura iídiche: o magnífico arquivo de uma civilização que os nazistas quiseram destruir foi trazido integralmente a salvo para o século XXI”. Já o fundador do Internet Archive, Brewster Kahle, assinala: “É a primeira vez que a Literatura integral de um povo se tornou disponível on line. Esperamos que outros sigam este exemplo pioneiro”. Desde o início de suas atividades, em 1980, o Centro resgatou cerca de um milhão de livros iídiches ameaçados e os redistribuiu por mais de 600 bibliotecas e universidades de todo o Mundo. Tais coleções, incluindo milhares de cópias duplicadas, representam a maioria dos livros já publicados em iídiche. Em comunicação pessoal, Lansky — autor, entre outras, da obra Outwitting History: How a Young Man Rescued a Million Books and Saved a Vanishing Civilisation [2004] — acrescenta que numerosos desses livros foram resgatados de países como Rússia, Austrália, Zimbábue, África do Sul, Argentina, Chile, México, Cuba e Brasil.

MAS O QUE É O IÍDICHE?!

A língua iídiche resultou do antigo médio-alto alemão, com inumeráveis empréstimos de hebraico, aramaico, alemão moderno, línguas eslavas etc. Usa frases tipicamente “alemãs”, ao lado de expressões diretamente retiradas do legado hebraico. A palavra iídiche (Yiddish) veio de Jüdisch, termo germânico genérico para "judaico" (de Jüden = judeu). É o iídiche falado por mais de três milhões de judeus asquenazitas, nos EUA, Israel, Argentina, Argentina, Reino Unido, Rússia, Canadá, Ucrânia, Bielo-Rússia (Belarus), Hungria, Moldávia (Moldova), Lituânia, Letônia, Bélgica, Alemanha, Polônia, Austrália, França, Ucrânia, Estônia, Romênia, Suécia, Holanda e Brasil. Após a Diáspora de inícios da Era Cristã, os judeus instalados entre a França e o que é hoje a Alemanha receberam, em grupo, a designação de asquenazitas, provinda do termo bíblico Ashkhenaz (= Germânia, Alemanha), ao passo que os fixados na Península Ibérica chamaram-se serfarditas (de outro termo bíblico, Sefarad = Espanha).

O povo judeu sofreu vários exílios, ao longo da História (e onde se lê “História” está implícita a palavra carnificina): sob os assírios (722 antes da Era Comum), foram levados ao Khorasan, vivendo desde então em território persa; em 588 antes da Era Comum, viram-se deportados para a Babilônia; com a destruição, pelos romanos, dos primeiro e segundo Templos em Jerusalém (e, depois, da própria Judéia) e com sua expulsão pelo imperador Adriano (135 da Era Comum), os judeus se espalharam, na Idade Média, em lento processo, por diversas áreas da Europa e de outros Continentes. Sucessivos e numerosos grupos, expulsos do Oriente Médio (Judéia, Palestina etc) e chegados a partes da Europa no pós-Diáspora [= "dispersão"], falavam originariamente o aramaico e, em menor extensão, o grego e o latim vulgar. Seu linguajar mudava à medida que os grupos de migrantes contactavam com outras populações, na França, Itália, Grécia, Chipre, Turquia, Polônia, Hungria, Germânia, Rússia, Espanha, Portugal... Depois, asquenazitas e sefarditas desenvolveram seus falares sob a influência dos novos territórios em que se instalavam (iídiche em Ashkenaz e ladino em Sefarad).

LÍNGUA INDO-EUROPÉIA, SIM!

Assim, o iídiche é língua da grande família indo-européia, ramo germânico, derivando do antigo Médio-Alto Alemão. Apesar disto, usa um alfabeto hebraico adaptado, escrevendo-se também da direita para a esquerda. Desenvolveu-se a língua, com seus dialetos principais (o oriental e o ocidental), a partir do século X, no Vale do Baixo Reno. Ainda na Idade Média, começou a se espalhar pelo centro e leste europeus, indo bem depois para outros Continentes. Estabeleceu-se como língua literária a partir do século XVIII. Suas variedades ou dialetos têm muitos empréstimos hebraicos, aramaicos e eslavos. Já no século XV, o iídiche era bem diferente dos falares germânicos à sua volta. O mais antigo documento escrito na nova língua data de inícios do século XIII. A partir do século XVI, após o surgimento da imprensa, também se tornam mais abundantes suas publicações. Os séculos XVIII e XIX foram de esplendor para o iídiche, antes que a fúria nazista se abatesse sobre os judeus, de fala iídiche ou não.

Às vésperas da II Guerra Mundial, havia cerca de 12 milhões de falantes do iídiche, mas tal número foi drasticamente reduzido pelos nazis, fugindo os judeus remanescentes para os EUA, antiga URSS e outros países. Hoje, há cerca de 3 milhões de falantes do iídiche oriental (um terço deles nos EUA) e aproximadamente uns 50 mil do iídiche ocidental, quando eram dezenas de milhares antes do Holocausto. Só em Nova York há sete jornais em iídiche, inclusive on line, e várias revistas. O iídiche sempre foi muito utilizado em peças teatrais, na Europa (especialmente Alemanha) e nos EUA. Com o êxodo de artistas e diretores para a América, algumas dessas peças se transformaram em obras-primas do Cinema americano e o próprio iídiche influenciou a gíria ianque.

GRANDES FILHOS DO IÍDICHE

Afora Spielberg, a Cultura asquenazita de fala iídiche produziu grandes nomes, como (para citar só alguns) Albert Einstein, Sigmund Freud, Isaac Asimov, a atriz Lauren Bacall, Eliezer ben Yehuda (criador do hebraico moderno), George Gershwin (compositor americano), a célebre anarquista russo-lituano-americana Emma Goldman, a primeira-ministra Golda Meir, o rabino Baal Shem Tov (fundador do hassidismo), Joseph Stiglitz (judeu-americano, Nobel de Economia em 2001), o compositor Gustav Mahler, o famoso sábio Vilna Gaon e por aí vai.

E, para tornar este “conto” mais “real”, a Wikipedia registra nada menos que 838 escritores judeus — só nos EUA. Dá pá tu?!

OUTRAS ARTES DO SPIELBERG

Não é a primeira vez que Steve Spielberg — uma das mais influentes personalidades da História do Cinema — nos brinda com realizações de vulto como esta. Ele também doou sua imensa e riquíssima coleção de filmes judaicos (inclusive películas originais e documentários sobre o Holocausto) para que a Universidade Hebraica de Jerusalém [www.huji.ac.il/huji/eng] montasse um portal, como de fato montou, com 400 filmes que podem ser vistos on line, gratuitamente e na íntegra, bastando ir ao URL www.spielbergfilmarchive.org.il (os sites podem ser vistos em hebraico e inglês).

Existem por lá filmes raros e imperdíveis, além de curiosidades fílmicas e links para The Association of Moving Image Archivists, o Avraham Harman Institute of Contemporary Jewry, a Coleção Judaica da Biblioteca Widener da Universidade Harvard e outras instituições sérias que mantêm acervos similares. Também recentemente, Steve Spielberg doou US$ 1 milhão para o Museu de História Judaica da Pensilvânia. Antes, criara a Fundação da História Visual dos Sobreviventes do Holocausto.

A RESPOSTA DE SPIELBERG

Durante muito tempo, Steve Spielberg foi um judeu, digamos, relutante. Isto em função da perseguição que sofreu, na infância e na adolescência, por sua condição étnica, nos próprios EUA. Muitos rapazes, certamente expressando a opinião de alguns pais, costumavam gritar "Família dos Spielberg, judeus sujos!" diante de sua casa. O jovem Steve, que se transformaria num gênio do Cinema, era um menino praticamente isolado: ia para a escola sem a companhia de amigos judeus e não havia na cidade nenhum centro judaico que o pudesse acolher, no lazer e nos estudos.

Mas não guardava rancor dessas coisas, sem também oferecer a outra face aos tapas, por entender que “a intolerância é fruto do medo, do desconhecimento do outro”. Preferiu se dedicar a seus estudos e, principalmente, ao cinema, onde produziu obras-primas eventualmente sobre temas judaicos, como A Lista de Schindler e Munique. Assumindo integralmente sua condição de judeu e herdeiro de rica tradição histórico-cultural, Spielberg igualmente patrocinou a fundação do Instituto Shoah na Universidade do Sul da Califórnia [http://college.usc.edu/vhi]. Sendo Shoah exatamente o termo hebraico para Holocausto, este Instituto americano preserva milhares de fotos, arquivos de voz e filmes, bem como 52 mil entrevistas com sobreviventes judeus das atrocidades do nazismo. Com este material, foi possível ao Yad Vashem [vide abaixo] e à empresa EMC levar 200 mil horas de vídeos a Israel, que vão se somar a 10 mil outros documentários filmados e mais umas cinco mil películas produzidas em todo o Mundo enfocando o Holocausto. Todas estas coleções — zilhões de terabites, pesando mais de uma tonelada! — serão colocadas on line, à inteira disposição do público.

CONTRA FATOS NÃO HÁ ARGUMENTOS

O Holocausto — fato histórico hiperdocumentado, mas negado por gente ignorante como o atual presidente do Irã, embora sob enfáticos protestos da ONU, do Mundo inteiro e da própria Oposição iraniana — não foi um crime apenas contra os judeus: foi um pavoroso delito, "um horripilante ato contra toda a Humanidade, contra todas as Nações, contra todas as Religiões", como disse recentemente o árabe Raleb Majadele, ministro integrante do Gabinete israelense, como representante dos árabes israelenses.

Isto mesmo, não é mais uma ficção: sempre há um árabe no Governo de Israel, representando sua comunidade no país — um país que, justamente por contar com um Governo democrático, escolhido pelo voto, faz medo a tanta gente no Oriente Médio... a ponto de muitos desejarem que Israel seja varrido do mapa, jogado no mar etc. É o mesmo árabe Raleb Majadele quem conclui: "De agora em diante, os falantes da língua árabe [e também da língua farsi ou persa] podem apreender a verdade em torno do Holocausto", graças a esses dois novos portais.

VÁ AOS PORTAIS, VEJA OS VÍDEOS

Da mesma forma, o príncipe Hassan, da Jordânia (país árabe, pois não!), num vídeo de 25 minutos, disponível on line, lamenta o Holocausto e a tentativa de negá-lo. Diz o príncipe, entre outras coisas: "Todos os filhos de Abraão [isto é, os árabes e os judeus] sentem enorme angústia ante os fatos do Holocausto [o assassinato de seis milhões de judeus pelos nazistas], que afligiram um dos ramos [o ramo judaico] de nossa família interligada".

Estas declarações foram gravadas para o recente lançamento de dois portais, um em árabe, outro em farsi (iraniano, persa) pelo Yad Vashem, para contrabalançar a campanha dos para-fascistas, filo-nazistas e neonazistas que tentam negar a realidade do Holocausto. Em tempo: o Yad Vashem [em hebraico, יד ושם] é a instituição internacional que, de modo confiável e com orientação científica, guarda e honra a memória das vítimas judias do nazismo, em Jerusalém. Estes novos portais serem vistos a partir dos URLs www.yadvashem.org e www.yadvashem.org/arabic.htm?WT.mc-id=arabic-hp-eng241716. Este último, em árabe, intitula-se justamente عن الهولوكوست = Sobre o Holocausto.